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A insatisfação corporal
"A insatisfação corporal
Passámos então, do "tunnig" dos carros e das motos, para o "tunnig corporal"!
Data: 12-11-2009
Está a tornar-se uma obcessão, que aparece, todos os dias, materializada por uma autocrítica activa e permanente, de que não estamos contentes com a imagem do nosso corpo - seja a forma e o feitio, sejam os excedentes ou os déficits, sejam até, as deformações inatas ou adquiridas. Parece que estamos com alguma relutância em aceitar, entre outras coisas, o natural envelhecimento ou desgaste - afinal, o uso mais que natural - do nosso bem-amado corpinho. E, é o nariz que se "tornou" grande ou então é muito pequeno, o peito que não encaixa e tem de ser ampliado ou reduzido, a bacia que ficou mais ovalada e fez aumentar a barriga e as nádegas, o "papo" que não pára de crescer, as rugas que já triplicaram e até os lábios, que agora para serem bonitos, têm de "inchar" e se tornar "beiças". Este pequeno desarranjo psico-somático circunstancial, leva as pessoas a procurar soluções imediatistas, que lhes consomem, os seus rendimentos e outros demais de terceiros, para satisfação dum ego, que parece ser deficitário e talvez, fútil,... como se toda a verdade da vida estivesse na frase de Vinícius de Morais: ..." e as feias que me perdoem, mas a beleza é essencial"! Passámos então, do "tunnig" dos carros e das motos, para o "tunnig corporal"! Com acrescentos, de cabelo, de unhas, em orgãos, de peças metálicas - nas mais variadas partes do "globo" corporal - de pinturas, - abstractas, paisagísticas, com animais de estimação ou predadores magestosos, com letras, números significativos, frases solenes - enfim, um sem número de hipóteses, com a dimenção da imaginação terrena. Desde as pessoas que querem alterar partes do corpo, para ficar parecidas com o seu ídolo "no activo", até as que, por necessidades fisiológicas, ou até por doença, o têm de corrigir, de tudo se vê, um pouco. E assim, passamos a não saber, o que é verdadeiro e o que é falso,... mas fica-se a conhecer, isso sim, pelas revistas "cor de rosa" - não entendo a cor escolhida, porque lá dentro é só desgraça - de cirurgias estéticas, "milagrosas", algumas praticadas por meros clínicos, intitulados especialistas, com pormenores, miranbolantes, sobre as práticas realizadas, com alguns passos da intervenção e suas técnicas e depois, os preços cobrados, exorbitantes, claro! E qualquer dia, veremos um desses "crónicos" mediáticos, deixar-se operar, ao vivo e em directo, por exemplo, ás hemorroidas, o que vai provocar o gaúdio imenso, dos espectadores "habitués", do canal filmante! Com o "dito cujo", a ganhar um dinheirinho extra, claro está! E esta procura excessiva, fez aparecer também uma oferta excessiva, com curas de emagrecimento, rejuvenescimento, terapêuticas para adelgaçar, para alargar, tratamentos para aumentar, tratamentos para diminuir, seja o apetite seja a função sexual, tudo sempre feito, com a referência do uso exclusivo de produtos naturais. E o que são esses produtos naturais? Convém aqui lembrar que, de entre outros, o veneno de cobra, também é um produto natural!
Parece-me legítimo que se queira dar um toquezinho mais estético, no nosso corpo, dentro de alguns limites, até porque em termos funcionais, pode ser importante realizar algumas correções. Como também há idades mais indicadas para as realizar, sendo feito de maneira seriada. Mas o que está a acontecer, é o supermercado de opções de "tunning" como se duma lista de compras, se tratasse, e quem tem mais capacidade financeira, mais operações vai realizar, mesmo que não sejam indicadas. E passando agora aos exemplos: os implantes mamários, que se fazem com alguma frequência, e que até são em alguns casos, mandatórios, em termos práticos, podem considerar-se úteis: primeiro, pelo efeito produzido no ego do indivíduo, depois para os circundantes, se tiverem oportunidade de disfrutar o "produto", e depois ainda, por aumentarem a flutuabilidade, contribuem para a diminuição dos "acidentes natatórios", nas nossas praias e piscinas, durante a época balnear! Outro exemplo são as peças metálicas, que, sendo na prática exclusivamente decorativas, ao contrário dos anteriores, dificultam a flutuação, pelo aumento do peso corporal, e também se tornam incomodativas, nos controles de segurança, dos aeroportos, edifícios públicos e museus, porque aumentam de maneira significativa as filas de espera no respectivo acesso. Enfim, vantagens e desvantagens, da utilização de materiais decorativos não biológicos, estranhos ao nosso corpo e que provocam necessáriamente efeitos colaterais conhecidos e até esperados. E vou acabar com a pergunta: Será que isto faz parte duma moda, com tudo aquilo a quanto ela nos pode obrigar?"
José Manuel Morna Ramos Médico
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Um texto de Opinião" retirado de um Diário, que considerei super - interessante e decidi partilhar convosco Amigos Meus. -
Ser rosa no inverno de que serve?
IMPROVISO
"Uma rosa depois da neve,
Não sei que fazer
de uma rosa no inverno.
Se não for para arder,
ser rosa no inverno de que serve?"
EUGÉNIO DE ANDRADE
A rosa é sempre a mensagem,
O fogo é sempre a viagem
Dos braços abrasados na miragem
Do calor de ocultos véus
Poeta!Poeta em astros
De altos lumes
De altos mastros
Lembranças de lumes castos
E de perfumadas bodas
Em teatros saudosos
Eternos bailes de roda...
Na sonhada perfeição
Dos leitos que a noite embala
Nos seus véus
De ocultos sagrados rios
Rios de amor ocultados
Na paixão dos bem-amados
Água,Luz.Murmúrio a dois,
No olhar adormecido.
Luz de um céu imaginado
No presente,no passado
Água,voz,canção de sóis.
De Natércia Freire -
As palavras
As palavras
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
Eugénio de Andrade -
É urgente um barco no mar.
Urgentemente
É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.
Eugénio de Andrade -
Olhar o rio feito de tempo e água
ARTE POÉTICA
Olhar o rio feito de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E nossas faces passam como a água.
Perceber que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar, e que essa morte
Que a nossa carne teme é a mesma morte
De toda noite, que é sono, que é sonho.
Vislumbrar num dia ou num ano um símbolo
dos dias dos homens e de seus anos,
E converter o ultraje desses anos
Em uma música, um rumor e um símbolo.
Ver na morte o sonho, entrever no ocaso
Um triste ouro, sendo assim a poesia
Que é imortal e pobre. Pois a poesia
Volta sempre, tal como a aurora e o ocaso.
Às vezes durante as tardes um rosto
Nos olha do mais fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nosso próprio rosto.
Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao divisar sua Ítaca
Tão verde e humilde. A arte é essa Ítaca
De verde eternidade, sem prodígios.
Também é como o rio interminável,
Que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.
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Jorge Luís Borges (1899-1986), poeta e ficcionista argentino, considerado um dos maiores escritores do século XX na América Latina. Fundou, em 1924, a revista literária Martin Fierro, e colaborou em La Prensa e na revista Sur. Opositor da ditadura de Perón, foi obrigado a demitir-se do cargo que ocupava na Biblioteca de Buenos Aires. Ligado inicialmente ao grupo de vanguarda artística ultraísta, voltou-se posteriormente à poesia de inspiração clássica. É conhecido especialmente por seus contos fantásticos e ensaios sobre temas ligados à Cabala, à Divina Comédia, à poesia medieval e ao Oriente, onde comparecem os temas de sua predileção, como os espelhos, os tigres, o tempo cíclico e os labirintos. Publicou, entre outros títulos, Fervor de Buenos Aires (1923), História Universal da Infâmia (1935), História da Eternidade (1936), Ficções (1944) e O Aleph (1945). -
As Coisas Transitórias
As Coisas Transitórias
Irmão,
nada é eterno, nada sobrevive.
Recorda isto, e alegra-te.
A nossa vida
não é só a carga dos anos.
A nossa vereda
não é só o caminho interminável.
Nenhum poeta tem o dever
de cantar a antiga canção.
A flor murcha e morre;
mas aquele que a leva
não deve chorá-la sempre...
Irmão, recorda isto, e alegra-te.
Chegará um silêncio absoluto,
e, então, a música será perfeita.
A vida inclinar-se-á ao poente
para afogar-se em sombras doiradas.
O amor há-de ser chamado do seu jogo
para beber o sofrimento
e subir ao céu das lágrimas ...
Irmão, recorda isto, e alegra-te.
Apanhemos, no ar, as nossas flores,
não no-las arrebate o vento que passa.
Arde-nos o sangue e brilham nossos olhos
roubando beijos que murchariam
se os esquecêssemos.
É ânsia a nossa vida
e força o nosso desejo,
porque o tempo toca a finados.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.
Não podemos, num momento, abraçar as coisas,
parti-las e atirá-las ao chão.
Passam rápidas as horas,
com os sonhos debaixo do manto.
A vida, infindável para o trabalho
e para o fastio,
dá-nos apenas um dia para o amor.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.
Sabe-nos bem a beleza
porque a sua dança volúvel
é o ritmo das nossas vidas.
Gostamos da sabedoria
porque não temos sempre de a acabar.
No eterno tudo está feito e concluído,
mas as flores da ilusão terrena
são eternamente frescas,
por causa da morte.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.
Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"
(Tradução de Manuel Simões)
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E foi num aperto de mãos como este, na penúltima vez que estive contigo, que me fizeste sentir e ter a certeza de que sabias estar para breve a tua transição...
Estejas onde estiveres que sejas absolutamente livre!!
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Haverá ligação entre este poema e a perda de um irmão?
Não sei, ainda não consigo "ver"... sei apenas que quando o li no blog do meu Amigo António - "Ares_Lusitani" só vi essa ligação... -
UM RIO TE ESPERA
UM RIO TE ESPERA
Estás só, e é de noite,
na cidade aberta ao vento leste.
Há muita coisa que não sabes
e é já tarde para perguntares.
Mas tu já tens palavras que te bastem,
as últimas,
pálidas, pesadas, ó abandonado.
Estás só
e ao teu encontro vem
a grande ponte sobre o rio.
Olhas a água onde passaram barcos,
escura, densa, rumorosa
de lírios ou pássaros nocturnos.
Por um momento esqueces
a cidade e o seu comércio de fantasmas,
a multidão atarefada em construir
pequenos ataúdes para o desejo,
a cidade onde cães devoram,
com extrema piedade,
crianças cintilantes
e despidas.
Olhas o rio
como se fora o leito
da tua infância:
lembras-te da madressilva
no muro do quintal,
dos medronhos que colhias
e deitavas fora,
dos amigos a quem mandavas
palavras inocentes
que regressavam a sangrar,
lembras-te de tua mãe
que te esperava
com os olhos molhados de alegria.
Olhas a água, a ponte,
os candeeiros,
e outra vez a água;
a água;
água ou bosque,
sombra pura
nos grandes dias de verão.
Estás só.
Desolado e só.
E é de noite.
Eugénio de Andrade -
há fábricas de dias que virão
Esperemos
Há outros dias que não têm chegado ainda,
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas
- há fábricas de dias que virão -
existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos
com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato.
Pablo Neruda (Últimos Poemas) -
SE CADA DIA CAI
SE CADA DIA CAI
Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.
há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.
Pablo Neruda (Últimos Poemas) -
girei as estrelas...
A poesia
E foi nessa idade... Chegou a poesia
para buscar-me. Não sei de onde
saiu, do inverno ou do rio.
Não sei como nem quando,
não, não eram vozes, não
palavras, nem silêncio,
mas desde uma rua que me chamava,
desde os ramos da note,
de súbito enre os outros,
entre fogos violentos
ou regressando só,
ali estava sem rosto
e me tocava.
Não sabia o que dizer, a minha boca
não sabia,
nomear,
meus olhos eram cegos,
algo me golpeava a alma,
febre ou asas perdidas,
fui me fazendo só,
decifrando
aquela queimadura,
e escrevi a primeira linha vaga,
vaga, sem corpo, pura
brincadeira,
pura sabedoria
de quem não sabe nada,
e vi de súbito
o céu debulhado
e aberto,
planetas,
plantações palpitantes,
a sombra perfurada,
atravessada
por flechas, fogo e flores
a noite agasalhadora, o universo.
E eu, um mínimo ser,
ébrio do vazio enorme
constelado,
à semelhança, à imagem
do mistério,
senti-me parte pura
desse abismo,
girei as estrelas...,
meu coração se desatou no vento.
Pablo Neruda
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