ritavelosa
feminino - 57 anos, Américo Brasiliense, Brasil
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CRÔNICA
OS CARAS-DE-PAU!
“Uns vêm a passeio, outros a serviço”. Os que vieram a passeio, gastam seu tempo elaborando planos para explorar cada vez mais os que vieram a serviço. Assim é a vida nos dias de hoje: a cara-de-pau grassa à solta, impunemente.
Os que vieram a passeio, estão sempre risonhos, sempre disponíveis, sempre abertos a novas amizades e a novos relacionamentos. Estão sempre planejando uma viagem, uma festa, um churrasco; mas, é claro, sempre às custas de um vizinho, sempre na casa dum parente, sempre na chácara de um amigo.
Os que vieram a passeio, estão presentes em todos os aniversários, em todos os velórios, em todos os casamentos, em todas as festas de praça, em todos os comícios políticos, congressos, exposições, noites de autógrafos, festas de peão, feiras e shows.
Os que vieram a passeio, estão sempre presentes nos botecos, papeando, comendo e bebendo as custas dos amigos.
E os que vieram a serviço?
Ah, esses?
Nem sei por onde andam!
Ninguém nunca os vê. Ninguém sabe deles. São uns pobres coitados! Chegam suados e fedidos em casa, desabam no sofá e babam; não sem antes preparar cuidadosamente o relógio despertador para que não corram o risco do vexame de se atrasarem para o trabalho no dia seguinte.
E nos finais de semana? Bem, nos finais de semana, eles têm que limpar a casa, abastecer a despensa lavar e passar a roupa suja, tosar e banhar o cachorro, cuidar de suas plantas que estão quase mortas, dizer um rápido alô aos vizinhos, para que saibam que ainda estão vivos.
Depois? Ah, depois, eles têm que descansar um pouco, que ninguém é de ferro! Precisam esticar-se na horizontal, curtir o silêncio ao redor, dormir um pouco para esquecer que vieram a serviço. Estão cansados demais para saírem e espairecer.
As salas dos psiquiatras, psicólogos e psicoterapeutas estão cheias destes, que vieram a serviço.
Sabe por quê?
Porque não vieram a serviço por opção. Estão a serviço, o tempo todo, por falta de opção. Estão a serviço, porque os que vieram a passeio não estão fazendo a sua parte; infernizam suas vidas com a sobrecarga de trabalho. Sufocam seus corações e mentes, tiram seu lazer, não lhes deixam tempo para pensar, para orar ou para aliviar sua carga.
Os que vieram a passeio assim fazem para que os que vieram a serviço não ousem pôr as cabecinhas para fora do buraco. Afinal, quem eles pensam que são? Gente? -
O SUCURI
A vila, no coração de Goiás, adormecera. Assim, tão silenciosa e banhada apenas pelo luar, parecia mais que morrera já há tempos. As ruas poeirentas e desertas eram poucas e estreitas. O vento por elas passeava e penetrava pelas frestas das janelas carcomidas espalhando um silvo estranho pelo ar.
Não muito longe, no fim da rua principal, ficava a cadeia do lugar. Chicão tomara uma importante decisão.
Aos poucos o sol foi saindo e banhando a rua, as casas e os terreiros. O vilarejo todo se espreguiçava.
Levantara-se das palhas que lhe serviam de cama. Olhara em volta: um puxado exíguo. Era seu quarto, sua sala, seu banheiro, sua casa enfim. Ao lado, um pequeno cômodo com duas janelas que davam para uma das ruas laterais do lugar. No cômodo, três prisioneiros: ladrões de gado.
Dois haviam sido presos por Chicão e alguns moradores de uma fazenda dos arredores. Uma testemunha ocular fora o bastante. Chicão caçara-os .Estavam acampados na Beira do Rio Corrente em meio à mata margeante. Depois do cerco silencioso , veio o tiroteio incessante e rápido.
O terceiro era assassino assalariado. Foi preso seis meses mais tarde.
Dois anos! Chicão tivera que alimentar os presos com dinheiro tirado de seu próprio salário por todo esse tempo. O governo se esquecera deles. E não haviam sido julgados, por falta de juiz, que já havia sido solicitado várias vezes, porém nunca aparecera.
Chicão olhou em volta mais uma vez e num desabafo de desânimo e desesperança gritou:
__ Já tô cheio doceis! Durante dois anos servi de criado proceis! Agora chega de moleza! Chega de levantá cedo prá fazê café prá vagabundo! Chega de enchê bucho de cabra cum dinheiro do meu bolso! Já tô farto de sustentá oceis treis! É hoje que eu acabo com essa mamata!
E assim dizendo, encaminhou-se para o canto do puxado onde estava seu revólver. Carregou-o e dirigiu-se aos prisioneiros que ainda permaneciam deitados, como costumavam fazer - a espera de que ele lhes trouxesse o café da manhã.
Chicão bateu com o cano do revólver nas grades e chamou:
__ Levanta, cambada de vagabundo, que hoje eu preparei um café especiar proceis. Prestem atenção no que eu vou dizê: vô abri essas grade e dá quinze segundo proceis. Aquele que conseguí passá a cerca alí da colina pode se mandá, e nunca mais apareça presses lado qui eu prego fogo! Agora... depois de quinze segundo eu abro fogo prá matá! So ceis não tiverem prá lá da cerca pode encomendá a arma!
E assim dizendo foi abrindo a cela e berrando:
__ Já!
Abriu fogo. Matou um, matou outro e feriu o terceiro, que conseguiu fugir.
Os tiros atraíram o povo da cidade que logo cercava os cadáveres e interrogava Chicão sobre o acontecido.
__ Eles tentaram fugi.
__ Cadê o Sucuri?
__ Eu feri ele, mais ele fugiu assim mesmo.
__ Ele é vingativo, vai vortá quando ocê menos esperá!
__ Que venha, que eu lhe furo a outra perna também.
Quando a “captura”- um grupo de policiais que passava de quando em quando recolhendo presos para levar para a capital ,para a prisão e julgamento- passou, dois meses mais tarde, soube do incidente e trouxe notícias do Sucuri: roubara gado de uma fazenda ao norte do lugar.
Chicão se lamentou por não tê-lo matado. Já andava meio esguio, nervoso, pois sabia que o Sucuri era traiçoeiro e sempre voltava para engolir a vítima.
Poucos meses mais tarde uma notícia voava de boca em boca: Chicão estava morto!
Fora achado no terreiro, a poucos passos de distância donde morreram Zelão e Cotia, com cinco tiros nas costas. O Sucuri havia retornado para engolir sorrateiramente a sua presa.
TEXTO DE RITA VELOSA
PROTEGIDO POR DIREITOS AUTORAIS
FAVOR CITAR SEMPRE A AUTORIA -
Papo-Cabeça
Eu hoje aqui me sentei,
Prá pichar os males do mundo;
Prá falar da fome, do medo,
Dos crimes, das agressões,
Das incompreensões,
Das prisões,
Das organizações,
Das instituições,
Das perdições,
Das omissões,
Das prostituições,
Das doenças,
Das desavenças,
Das maledicências,
Das indecências,
Das incoerências,
Dos preconceitos,
Das injustiças,
Das ganâncias,
Das ignorâncias.
Mas, de repente...
Me lembrei
De Maomé,
De Confúcio,
De Cristo,
De Mao,
De Marx,
De Gandhi.
Então desisti.