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Confiança masculino - 62 anos, Fernão Ferro, Portugal
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Eu quis fazer um poema alusivo ao Natal!
Eu quis fazer um poema alusivo ao Natal!
Um poema tão lindo como aqueles que os poetas com toda a sua nobreza, perspicácia e sensibilidade artística, normalmente fazem nesta quadra festiva.
Um poema que tivesse o condão de reacender a luz da esperança no coração daqueles a quem o infortúnio apagou; que pudesse minimizar a dor que mina as entranhas daqueles que sofrem de doença grave e prolongada; que pudesse restituir os bens perdidos àqueles que, sendo os menos culpados, são os mais atingidos pelas cada vez mais frequentes catástrofes.
Eu quis fazer um poema alusivo ao Natal!
Um poema que tivesse a força de responsabilizar e castigar aqueles que pela cegueira da ganância destroem o planeta e que, por outro lado, lhe conseguisse restituir o esplendor de outrora. Um poema sem frases feitas, vazias e banais, onde a palavra Feliz Natal tivesse a ousadia de entrar e se instalar em qualquer casa de qualquer canto do Mundo e as crianças não vissem o pai natal como mero entregador de brinquedos mas sim, (muito embora ilusória), como figura paternal detentora do sorriso e da felicidade.
Eu quis fazer um poema alusivo ao Natal!
Um poema onde a rima fosse pão e a métrica o remédio para quem precisa; onde cada verso fosse semente e cada estrofe terra lavrada e fértil.
Eu quis fazer um poema alusivo ao Natal!
Um poema sem palavras de mágoa e ressentimento, sem pontos de interrogação, reticências, acusações… e livre de preconceitos e de expressão!
Eu quis fazer um poema, alusivo ao Natal, livre e perfeito! Mas não fui capaz!
Por não ser génio faltou-me o jeito e a arte; por não ser Deus faltou-me a confiança, a Santidade e a Omnipresença. E por ser homem faltou-me tudo… em especial a sensibilidade e a perfeição!
Abgalvão -
Paixão
Paixão
Dedos dedilham veias e nervos,
Fundem-se bocas em frenesim,
Sentidos ficam escravos e servos,
Esquenta-se o sangue dentro de mim.
Com mãos bailarinas, sábias, vividas,
Moldo-te o corpo com arte e engenho…
Tiro de ti paixões ressequidas
Como quem faz um quadro, um desenho.
Trituram-me a pele teus dentes e unhas,
Sobem e descem gemidos dengosos…
Soltam-se medos, “tabus vergonhosos”…
Desejos se prendem com trancas e cunhas.
Morrem vergonhas, medos, complexos,
Pernas e coxas se enroscam, gulosas,
E explodem visões paradisíacas.
Colam-se peitos, línguas, os sexos,
E gotas de orvalho brotam de nós
Com cheiro a essências afrodisíacas.
Abgalvão
DA -
Esta carta que te escrevo
Carta de amor
Esta carta que te escrevo,
meu amor,
fala do frio das noites
e das saudades de ti.
Fala do que te não disse
e por isso é que me atrevo
dizer-te, agora, aqui!
Fala deste amor que tenho,
fogo que arde e se vê…
E por esse amor mantenho
toda a fé, toda a esperança,
essa bem-aventurança
de me casar com você.
As aves, em formação,
recortando o céu azul,
preparam a migração,
rumam de Norte p’ra Sul.
As andorinhas partiram,
o verão já se acabou,
e as saudades assumiram
o Outono que chegou.
Meu coração anda louco
pulsando mais que devia,
ainda agora, mesmo á pouco,
quase do peito saía.
Mimosas e perfumadas,
as flores,
perfumam com seu aroma
as mãos daqueles que as cortam
mesmo depois de cortadas.
O amor que por ti sinto
é como essência de absinto
que me excita, que me toma,
e meus sonhos embeleza
ás cores!
O teu amor
é o canto da sereia
que me encanta e alucina...
É sol quente que calcina,
é montanha, mar, areia.
És a ilha que procuro
e por isso, amor, te juro,
que teu corpo, teu abraço,
tua boca, teu regaço,
é tudo quanto reclamo
quando, à noite, por ti chamo.
Esta carta que te escrevo
com carinho, com enlevo,
serve apenas para dizer
que te amo, podes crer!
Abgalvão
D.A. -
DELIRIOS
Delírios
Deita-te aqui, amor,
E espera...
Ou desespera
Na revolta contra o tempo,
(no contratempo),
Deste mundo impróprio
Para consumo
Sem rumo.
Mede, palmo a palmo, a distância
E faz...
Faz amor, desinibido, pela calada
Da alvorada!
Mastiga a dor, rumina, regurgita
E grita!
Grita contra o facto consumado,
Ou adiado…
Mas delira, amor,
Com a força de dar e receber
Prazer.
Deita-te aqui, amor, e entrega,
Ou segrega…
Entrega teu corpo ao meu, enfim,
Sem fim…
Beija minha boca com magia,
(magia louca),
E louca por orgia.
Enlacemos nossos corpos,
Sem decoro nem complexo...
E soltemos desejos descarados,
Os teus e meus!
Afoguemos as vontades nesses rios
Que nos brotam das entranhas,
Num abraço, num amplexo…
Soltemos delirantes arrepios...
Cantemos aleluia, como um coro,
Tu Euterpe… eu Orfeu!
Sim amor!
Deita-te aqui sem cerimónias
E entrega teu corpo
Sem medos nem parcimónias.
Esquece preconceitos sociais
E os tabus.
Somos jovens, somos livres,
Estamos nus!
Acorda, amor, com humor e alegria
Já é dia!... Mais um dia!
A vida é o deslumbre, o prazer
E o momento
De sentir, doar e querer
Com sentimento!
A vida é um flash
Que relampeja!
É som e medo
Quando troveja!
É como chuva
Que tanto cai,
Como se vai!
Como o sol que brilha,
Resplandecente...
Ou esmorece e morre
De repente.
A vida é cheiro, gosto
E cor!
É um parto que acontece
Dia a dia...
É paixão, prazer
E amor,
Festejados com sorrisos
De alegria.
A vida é a música de corpos
Balançando
E amando!
É o descarado murmúrio de beijos
Trocados,
Ou roubados!
A vida é dor, tristeza,
E loucura também
Se, acordado ou sonhando,
Eu, tu, ou alguém,
Por amar se julga louco.
Abgalvão
D.A. -
MENSAGEM DE NATAL (Acróstico)
Façamos que este Natal seja o melhor de sempre
Elevando a moral e os costumes…
Lutando contra a injustiça e a discriminação…
Investindo na amizade e compreensão…
Zelando pela concórdia nas famílias…
Não deixando que o egoísmo nos domine…
Abraçando sem complexos o nosso próximo…
Tolerando sem reservas nem recusas…
Aceitando qualquer mão que nos estendam…
Libertando a paz que está cativa…
Protegendo quem é fraco e oprimido…
Amando quem nos ama e quem precisa…
Rezando com a fé que não mostramos…
Acalmando a dor e choro de quem sofre…
Trocando mimos e lembranças sem reservas…
Ouvindo quem nos quer e aprecia…
Doando amor sem cinismo ou hipocrisia e,
Orgulhosamente,
Sentindo, no peito, o coração vibrar… gritar…
Vitória!
Ódio Não! Amor Sim!
Sem barreiras nem fronteiras!
FELIZ NATAL PARA TODOS!
Abgalvão
D.A. -
Doce paixão
Doce paixão
A ânsia espreitava a noite tardia…
O fumo azulado fugia ao cigarro…
A luz de néon apagava, acendia,
E a esperança saía da porta dum carro.
Badalavam, ao longe, os sinos da Sé…
A chuva caindo molhava a aventura…
E o nervoso subindo as escadas, a pé,
Mostrava, nas pernas, sinais de tremura.
Cortinas dançavam embaladas p’lo vento…
A cama aguardava, expectante, o prazer…
E uma porta, entreaberta, esperava o momento
Que o amor entrasse, sem nela bater.
Amor e desejo no quarto se fecham
Com velas acesas flamejando emoção…
Dois corpos febris e desnudos se entregam
À doce loucura que se chama paixão.
Abgalvão
D.A. -
Tu foste
Amigas e amigos aqui vos deixo este poema como sendo um pouco de mim!
Tu foste
Tu foste aquela por quem um dia
me apaixonei
e, por criancice, tantas loucuras
pratiquei.
Tu foste o poço das amarguras,
que cavei.
Lago de dor, mágoa e tristeza,
que alaguei.
Tu foste o sonho que tanto quis
mas não sonhei…
a estrela linda que eu perseguia
mas não toquei.
Foste a razão da inspiração
que não achei,
a obra de arte que um dia fiz
mas não gravei.
Tu foste a jóia, o diadema,
que não comprei,
a pauta e letra dessa canção
que não cantei.
Tu foste verso, quadra, poema
que rabisquei,
história de amor que publicar
eu não cheguei.
Tu foste rio e corrente
onde afoguei
toda a ansiedade e o desejo
que não matei.
Foste montanha, pico, vertente,
que não escalei…
essa medalha, taça ou troféu
que não ganhei.
Tu foste a lua cheia, no céu,
que tanto olhei,
o ás que tinha, no meu baralho,
mas não joguei.
Tu foste a noite louca de amor
que não passei,
a boca, querida, que por pudor
eu não beijei.
Tu foste a chama e o borralho
onde queimei
toda a ilusão dessa paixão
que aticei.
Foste, meu bem, toda essa vida
que desprezei
e hoje sinto doer a ferida
que não curei.
Quiseste no meu mundo entrar
mas não deixei,
e choro, agora, porque vejo
o quanto errei.
Tu foste tudo, tu foste nada,
mas eu bem sei,
que te esquecer não posso…
amor eu sei!
Abgalvão
D.A. -
Menina fado
Menina fado
Menina dos olhos negros
E da negra e longa trança…
Em que poço tu caíste
E em que enredo te inseriste
Empenhando assim a esperança.
Quem matou teus belos sonhos,
Quem forçou tua vontade…
E dos teus lábios risonhos
Quem lhes roubou o sorriso
Decepando a mocidade.
Menina do triste rosto
Onde a beleza reinou,
Lava as marcas do desgosto
Tão fortemente vincadas
Que um fado negro marcou.
Não te escondas, por favor,
Menina do negro fado.
Veste o teu sonho dourado,
Menina fado falado
Menina do negro amor.
Apaga, esquece, sepulta,
Essa dor que te revolta,
Enfeita teu coração,
Com arco-íris à volta,
Canta ao amor e exulta!
Destrói o medo menina,
Parte a casca do teu ovo…
És tão bela e feminina,
Menina do fado novo
Um novo amor tu mereces.
Canta ao mar, ao sol, á lua,
Tua vida, teu fadário,
Tua história, teu calvário…
Mas não te entregues, menina,
Ao triste fado da rua.
Abgalvão
D.A. -
O amor depois dos “entas”
O amor depois dos “entas”
Despoletando, em ti e mim,
Mil emoções…
Dedilhei, com delícia,
Os teus botões.
Libertei, com malícia,
As tuas vestes
E, de forma paulatina,
(é melhor dizê-lo assim),
Eu, em suma, te despi.
Passeei por teu corpo
O meu olhar,
Apreciei cada contorno,
Cada detalhe, cada sinal,
Por mais vulgar…
E reparei, agradecido,
Que estes tempos,
(tão agrestes, por sinal),
Me pareceram
Ter no tempo adormecido
Porque marcas, no teu corpo,
Não deixaram.
Repensei, mentalmente,
Trinta anos de vida
Em comum…
Revivi-os, ternamente,
Um a um
E reparei, minha querida,
Que em ti nada mudou.
O teu viço de menina,
Que me toma e alucina,
É perene e não murchou!
Depois…
Nossas bocas se envolveram,
Nossos corpos se colaram,
E as línguas se enroscaram
Num bailado sensual.
Depois…
Acariciei-te os seios,
Os mamilos entumecidos…
Afaguei-te o colo, o ventre,
As tuas coxas maduras…
Beijei teus pontos g, h, sei lá!...
E no clímax da paixão
Penetrei-te, meu amor,
Com a mesma chama e fulgor
Daquela primeira vez!
Depois…
Ummm… depois…
Ficamos num abraço persistente,
Pedindo que, no futuro,
As horas passem mais lentas
Porque o amor, depois dos “entas”,
É mais forte, bem mais puro,
Mais vivido e consistente.
Abgalvão
D.A. -
A Benguela, Angola, minha terra
Do peixe nas redes saltando,
Cheirando a mar…
Do suor brotando dos poros,
Sabendo a sal!
Das negras e brancas
Tagarelando…
Regateando
A compra e venda
Do peixe, da fruta,
Ou dum avental.
Das morenas,
Coxas ao léu…
Dos risos francos e livres
Largados ao vento
Na mesa dum bar…
Meu Deus do Céu,
Como é bom lembrar!.
São tantas memórias,
Tão vivas!
Que, nunca por nunca,
Por vidas que viva,
Serão descuradas,
Jamais esquecidas.
Assim é Benguela,
Tal qual eu a lembro!
Palmeiras esguias,
Mangueiras, canaviais…
Rolas, siripipis e janjás
Nos bananais.
O sol e a lua
Nos coqueirais...
A noite e o dia,
Convite à orgia
E a mestiçar.
Assim é Benguela,
Tal qual eu a lembro!
Do Bairro da Liga,
Á Senhora da Graça…
Dos Navegantes
Ao Largo da Peça.
Do Vale do Cavaco
À cinco de Outubro,
Meu Deus do Céu,
Como é bom lembrar!.
Assim é Benguela,
Tal qual eu a lembro!
Um doce de coco,
Ginguba, talvez!
kitande, muamba,
Falôfa, pirão.
Kanjika, kikuanga,
Jimboa, churrasco,
Receita de Deus
Que mãe negra fez!
Assim é Benguela,
Assim eu a lembro!
As farras nas Palmeirinhas,
Na Vila da Catumbela…
Fazer banga na Restinga
P’rás garinas do Lobito,
Terra linda, terra amiga,
Rainha do Carnaval.
Esta lágrima que me pinga
É dor, tristeza e fruto,
Desta mágoa que eu imputo
A tantas saudades minhas.
Assim é Benguela,
Tal qual eu a lembro!
Do Bairro Camunda,
À Massangarala.
Casseque, Caota, Calundo…
E lá mais ao fundo
A Baía Azul e a outra
Que é Farta.
Assim é Benguela,
Tal qual eu a lembro!
Kalunga, Mombaka…
E a praia serena
De nome morena
Que eu tive e amei.
Minha terra jardim,
Tão bela e amena,
Minha acácia em flor…
Ainda sinto na boca
O gosto da manga,
Mamão, papaia,
Tamarindo, gajaja
E o travo a dendém.
Abgalvão
D.A.
siripipis e janjás (pássaros)
Ginguba (amendoim)
kitande, muamba, Falôfa, pirão, Kanjika, kikuanga, Jimboa (culinária angolana)
banga (estilo)
Camunda, Massangarala, Casseque, Caota, Calundo (bairros locais)
Tamarindo, gajaja (frutos angolanos)
dendém (fruto donde se extrai o óleo de palma)