abgalvao888
Confiança masculino - 62 anos, Fernão Ferro, Portugal
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Blog / Há noites e noites!
Domingo, 13 Setembro 2009 às 10:08
A noite acontece e a velha cidade
se enfeita de luzes de todas as cores…
na rua se juntam vergonha e vaidade,
promessas, juras e alguns dissabores.
Há bares, motéis, discotecas, cinemas,
garotas sem graça com ar de adultas…
rapazes imberbes com grandes melenas
e tipos e tipas de origens ocultas.
Há risos e beijos de bocas pintadas
que alimentam sonhos, fecundam paixões…
os copos bebidos e as ervas fumadas
desnudam prazeres sem limitações.
Há moços que exibem as roupas de marca,
há moças desnudas com ar atrevido
e a dama madura que ouve e embarca
na banal cantada dum tipo sabido.
Há cheiros de essências florais e não só
que invadem narinas, atraem olhares…
olhos e rostos que de olhar metem dó
pelo exagero dos suplementares.
Há noites alegres e tristes bem mais…
noites com luz e muitas outras escuras…
noites d’angústia que alimentam os ais
e noites perfeitas com ceia e ternuras.
Há noites assentes em provas de amor
que acalmam a alma e o coração,
noites rasgadas planando ao sabor
de ventos que sopram calor e paixão.
Há noites gaiatas alegres e sãs
que se geram nos reinos da fantasia…
noites que parem excelentes manhãs
tal qual o poeta pare a poesia.
Mas há noites bem longas, feias, terríveis,
que ferem ou matam quem nelas se afoita…
e noites bem negras e imprevisíveis
p’ra quem no colo da noite se acoita.
São as noites de quem na escada do metro
sonha, acordado, com enchidos na grelha…
da mulher sem tino que fala co’espectro,
do homem que amou muito antes de velha.
A noite da dama, decorando a estrada,
do guarda que zela riquezas alheias…
a do Zé sem tecto cuja cruz pesada
macera-lhe os pés disformes, sem meias.
A noite da gata que aguarda, felina,
os ratos que saem dos canos d’esgoto…
do chulo que saca o viço à menina
do pulha que atrai, para o carro, o garoto.
As noites de medo que assustam quem tem
respeito p’la vida, quer d’outros, quer sua,
que mostra valores, que pugna pelo bem,
na noite não age, vive, ou actua.
A noite do grito na noite sem lua…
a do corpo que cai no chão vomitado…
do vulto fugindo no escuro da rua
após a facada no sentenciado.
Há noites que cheiram a enxofre e sangue
noites dos lobos da selva cidade…
noites daqueles que nos lodos do mangue
criam raízes de terror e maldade.
E há noites vividas sem sonhos nem horas…
noites de azar onde a vida se aposta
cavalgando bestas a toque d’esporas…
noites de merda, como o diabo gosta.
Há ais e suspiros na boca de alguém
na noite soando como uivo ou lamento…
monstros sinistros que chegam do além
e invadem, dos tolos, o pensamento.
Há drogas pesadas nas mãos de vilões…
corpos pelo chão ao veneno rendidos…
seringas e agulhas cavando infecções
demónios dançando em redor dos vencidos.
Abgalvão
Comentários 11 Organizar os comentários:
Filomena Maria Monteiro Dos Santos2415 Confiança (Domingo, 11 Outubro 2009 às 01:24)
Fantástico amigo Albertino!! Li , bebendo cada palavra, sorvendo cada verso, como que se tratasse de água fresca bebida para "mata"r a sede e quando terminei queria mais..como não tinha mais, segui lendo os comentários a tão lindo poema, embebecida e orgulhosa ...Parabêns !!! Como adoro esse teu jeito nu e cru de escrever
bjo bjo
lourdes Confiança (Segunda, 14 Setembro 2009 às 08:09)
Fantástico.
Um poema que descreve minuciosamente a vida de uma noite numa qualquer cidade, em que os quereres impuros se apoderam dos seres noctívagos em que se tornaram a maioria das pessoas hoje em dia.
E depois o oportunista que faz fortuna com a infelicidade dos outros.
Parabéns
Maria Confiança (Segunda, 14 Setembro 2009 às 07:46)
Albertino
Fantastico
Estrelinhas deixo , quantas me são possiveis adicionar.
Beijinhos
Sorrriso
Finguim
Landamachado (Segunda, 14 Setembro 2009 às 07:15)
É realmente um poema de arrasar, bem ao teu estilo
Impressionante de força e actualidade
Beijinhos
Kika Confiança (Domingo, 13 Setembro 2009 às 14:29)
Fantástico este teu poema retratando uma realidade tão actual
Muitos parabéns
Senti a falta dos teus poemas.
Um beijinho amigo
Joaquim Sustelo Confiança (Domingo, 13 Setembro 2009 às 12:37)
Fantástico! Mais um dedo na ferida, com muita categoria!
Um abraço
Luisa barros Confiança (Domingo, 13 Setembro 2009 às 12:10)
Duro e cru mas fantástico!
Actual e que nos leva até ao seu final empolgados nad tuas palavras.
Obrigada meu amigo
Beijinhos
papoila amiga Confiança (Domingo, 13 Setembro 2009 às 11:34)
Poema este, cru, mas tem dentro dele a realidade actual.
É preciso conhecer a noite, saber como ela se processa.
Uma franja significativa que se enquadra na perfeição neste teu poema.
Os meus parabéns pela actualidade do tema, e um abraço pela oferta.
Mia
Helena Teixeira Confiança (Domingo, 13 Setembro 2009 às 11:31)
Muito interessante, poeta amigo
Beijinho
Lena
Maria Ribeiro Confiança (Domingo, 13 Setembro 2009 às 11:07)
Agradeço a partilha e retribuo. Votos de boa semana!
Conta-me...
O que te afoga a alma,
Diz-me...
Sem nunca perder a calma,
O que te aflige no peito,
O que te faz sentir sem jeito,
A solidão, a tristeza...
O dia a dia, a maldade,
A falta de pão na mesa...
Existe alguma saudade
De toda aquela beleza,
Que teus olhos iluminava
Nalguma altura da vida,
Algo que teu coração amava,
Agora amargura sentida...
Conta-me...
Talvez possas ver acalmada,
A tua alma amargurada.
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