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Confiança masculino - 62 anos, Fernão Ferro, Portugal


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Blog 68


  • Caminhos da loucura



    Caminhos da loucura
    são punhais de pontas finas
    rasgando a pele à ternura…
    paralelos salientes
    em calçadas sem estrutura…
    corpos nus, vozes silentes,
    ideias em confusão...
    desejos mortos em esquinas
    de velhos muros sem cal…
    prazeres manipulados
    em catres de penas duras…
    artes de magos malditos
    sem varinhas de condão.
    São bebidas e tonturas,
    cama à espera em hospital…
    gestos desarticulados,
    agonias e conflitos…
    espanto dor e marasmo
    entre o soluço e o espasmo.
    Os caminhos da loucura
    são corredores estreitos,
    tortuosos, e em lonjura
    mais longos que o próprio medo.
    Os caminhos da loucura,
    fruto de sonhos desfeitos;
    são morte em corpo ‘inda são,
    mortalha negra e enredo,
    caixão de ideias sem nexo,
    ponto de vista complexo…
    e um vendaval permanente
    a fustigar uma mente
    com ventos de solidão.

    Abgalvão (In alma vadia)

  • Maria nome Maria mulher



    Dedicado a todas as mulheres. Às Marias e não só!

    Hei-de cantar o teu nome
    Como canta o rouxinol,
    Hei de gravá-lo no vento,
    Bordá-lo num cachecol

    Nas montanhas do meu peito,
    Nas planuras da verdade,
    Hei de gritá-lo a eito
    Aos ventos da liberdade

    Sobre cascalhos de esperança,
    Entre espinhos da desgraça,
    Entre cardos de ignorância
    E o negro da fumaça…

    Eu cantarei o teu nome
    E plantarei uma flor!

    Aí mesmo nesse ermo,
    Para lá do eco e do medo
    Onde o tempo não tem horas,
    O cansaço não tem sombra
    E a vida não tem razão…

    Hei-de cantar o teu nome
    E hei-de plantar uma flor!

    Aí mesmo, nesse espaço,
    Onde acaba a ambição,
    Onde começa a certeza,
    Onde a infância é velhice
    E a velhice um triste fado…

    Hei-de cantar o teu nome
    E plantarei uma flor!

    Até mesmo desse lado
    Onde o sol também é fel,
    Onde se canta com dor,
    Onde o vento é mais cruel
    E o sonho não tem lugar…

    Hei-de cantar o teu nome
    E hei-de plantar uma flor!

    Aí mesmo nesse ponto,
    Onde há pranto em cada canto,
    Onde o pão tem mais suor,
    Onde a sede é mais sofrida
    E a fome já tem bolor…

    Eu cantarei o teu nome
    E plantarei uma flor!

    Verei crescer essa flor
    Entre prados e hortejos
    Regada com muito amor
    Mimada com muitos beijos

    E entre teus alvos lençóis
    Colados teu corpo e meu,
    Te afagando os caracóis…
    Hei-de cantar o teu nome,
    Maria… Maria… Maria…
    Eternamente Maria
    Amada, amante, mulher!

    Abgalvão (In Fantasias, amor e poesia)

  • Meu amor primeiro



    Olhando os retratos que guardo, de então…
    De memória vivi registos, lembranças,
    Dos tempos bonitos da nossa paixão.
    Reli, soluçando, aquele poema
    De amor que escrevi e tinha por tema
    Teus cabelos negros, tuas longas tranças

    Revivi por momentos os beijos trocados
    Sentindo, inclusive, teu cheiro, teu gosto.
    Invadiu-me o calor de quando abraçados
    Fazíamos amor, após o sol-posto,
    Deitados na praia, na Ilha, em Luanda,
    Em cama de areia, sem passar por *ciranda

    Me dei à lua quando, aluada, por mim
    Chamou. Vivi paixões e ilusões senti
    Também. Andei perdido, eu bem sei que sim
    Dei tempo ao tempo e pude aprender
    Que amor bonito como o sentido por ti
    É amor… AMOR! Não pode morrer!

    Por onde é que andas meu amor antigo,
    Meu amor de sempre, meu amor primeiro?
    Por onde é que espalhas o doce perfume
    Que, nua, exalavas de teu corpo lume
    Pulsando desejos por todo ele inteiro,
    E me alucinava ao deitar-me contigo?

    Ai como eu sinto o doer desta saudade
    Que me reabre a ferida que nunca curei.
    Eu sei que assumi, (sem fugir à verdade),
    Que fui castrador, infiel, inconstante…
    Cedi a caprichos, não fui tolerante,
    E por isso perdi-te, meu amor, bem sei!

    Manda um recado, uma carta, um postal,
    Dá-me, por favor, uma pista, um sinal,
    E manda pelo vento quando ele te beijar,
    Ou pela chuva quando ela aparecer.
    Embrulha teus beijos quando o sol se esconder
    E vem com a noite meu sonho emprenhar!

    * ciranda (entenda-se como peneira grossa e grande usada para separar o cascalho da areia)

    Abgalvão (In fantasias, amor e poesia)

  • Quem eu quero não me quer



    Naquela praia deserta
    Sobem e descem marés,
    Voa o sonho em parte incerta
    E as ondas molham-me os pés

    Moram névoas nos meus olhos,
    A azia rói-me as entranhas,
    Minha sorte bate em escolhos
    Que emergem por artimanhas

    Teu amor foge de mim,
    Tua boca não me quer,
    Porque eu quero tanto assim
    Quem eu quero e não me quer

    Lambe-me as feridas, o vento,
    O orvalho rega a manhã,
    O sol dormita ao relento
    Com as dunas por divã

    Guia-me os passos, a lua,
    Beijam-me os lábios, as sombras,
    A noite desfila nua
    Quando no escuro me assombras

    Teu amor foge de mim,
    Tua boca não me quer,
    Porque eu quero tanto assim
    Quem eu quero e não me quer

    Tenho nervoso nos dedos,
    Palpitam-me os sentimentos,
    Misturo a dor com os medos
    E como-as sem condimentos

    Procuro ver-te no espaço
    Que delimita a esperança,
    Tu foges do meu abraço
    E eu bebo desconfiança

    Teu amor foge de mim,
    Tua boca não me quer,
    Porque eu quero tanto assim
    Quem eu quero e não me quer

    Neste peito, com saudade,
    Bate forte um coração,
    Luz acesa de ansiedade
    Fogo de amor e paixão

    Essa luz que me ilumina,
    Esse fogo que me aquece,
    São a força que domina
    E minha raiva arrefece

    Teu amor foge de mim,
    Tua boca não me quer,
    Porque eu quero tanto assim
    Quem eu quero e não me quer.

    Abgalvão (In fantasias, amor e poesia)

  • Paixão antiga



    Enroscaste tua mão na minha
    sedenta de afecto
    buscando calor
    e ao som dos corações batendo
    dançaram carícias
    cantou o amor.
    Humedeci teus lábios com a frescura
    dum beijo
    que, tremendo, recolhes…
    embebeda-se a ânsia,
    a secura se afoga
    e tu nem percebes…
    que a paixão era antiga,
    no peito uma ferida
    e por isso doía…
    era faca cravada,
    um punhal, uma espada,
    e por isso sentia
    que, tarde ou cedo,
    descobririas que em mim
    este amor se escondia.
    Voaram suspiros
    que o vento levou
    como estrelas cadentes
    libertas de nós
    e entre abraços, carícias,
    sussurros de voz,
    teu corpo desnudo
    ao meu se entregou.
    A noite, entretanto,
    na falésia caiu
    e a lua, feiticeira,
    um manto teceu,
    em vermelho carmim,
    como nunca se viu;
    com corações bordados
    o meu e o teu.
    A lua chegou, subiu a maré,
    e o mar afogou
    as marcas deixadas
    naquele areal,
    onde ambos sentimos
    e também descobrimos
    que a paixão era antiga
    e ali renascia
    de forma normal.

    Abgalvão (In Fantasias, amor e poesia)

  • Paixões de risco

    Cintilam ilusões
    Quando se enlaçam olhares
    E inventam-se razões
    Que alucinam corações
    Desatentos e carentes.
    Engordam-se vontades,
    Entre beijos de paixão,
    Bem mais doces do que ardentes…
    Agita-se a libido
    Com carícias descaradas…
    E transpiram-se desejos
    Entre sonhos coloridos.
    Mas quando a porta de entrada,
    Ao morrer a madrugada,
    Vira saída apressada;
    Carpem-se realidades
    Entre as dobras dos lençóis…
    Toca a sirene do medo…
    Rebobina-se o enredo…
    E na cama dos soluços,
    Com os sonhos destruídos…
    A esperança engravidada
    Pare dor e decepção
    Sem apoio ao domicilio.

    Abgalvão (In Palavras que tocam)

  • Desatino



    Não posso, não quero,
    nem consigo esquecer
    o sabor do teu corpo
    na noite passada.
    Por nada trocaria
    esse grato prazer
    que me deste
    submissa e excitada.
    Sem drogas ou “merdas”
    a turvar nossos sentidos,
    rasgamos a madrugada
    sem mapas, relógio, limites,
    nem sentidos proibidos…
    mas com cio!
    Muito cio!
    E loucura sem rebites
    instigando o desafio.
    Deitados num campo
    de centeio,
    corpos nus expostos ao luar,
    cavalgamos, sem rédeas
    nem freio,
    como cavalos selvagens
    que correm até extenuar.
    Dominamos o cansaço e o torpor,
    bebemos o suor dos nossos corpos
    amorfos…
    subimos, descemos,
    trocamos amor,
    afogamos beijos,
    e no fim...
    arrepio,
    satisfação,
    suspiro,
    languidez!

    Abgalvão (In Fantasias, amor e poesia)

  • Vem



    Vem acordar o meu prazer,
    meu amor
    reacender a chama inerte,
    por favor,
    adocicar o teu e meu,
    nosso viver!

    Vem…
    fazer a história deste amor
    recomeçar,
    deitar teu corpo em minha rede
    e aquecer
    teu corpo frio no meu corpo
    que o desejo
    mantém latente e aquecido
    p’la razão
    de seres razão, força
    e querer,
    desta paixão.

    Vem
    matar o teu e o meu desejo
    nesta hora,
    deixar rolar aquele beijo
    que demora,
    selar um pacto entre nós dois
    para durar.

    Vem…
    vem me abraçar!
    Estender teu corpo
    no meu leito,
    colar teus seios
    no meu peito,
    fazer amor depois, depois,
    e assim ficar!

    Vem…
    como andorinha
    na primavera,
    teu ninho aqui
    ainda te espera,
    vem!

    O tempo é curto
    e desespera,
    está fria a noite, hoje,
    lá fora,
    a chuva cai, bem forte,
    agora,
    vem, vem meu amor,
    Deixar teu cheiro
    nos meus lençóis,
    deixar que afague
    teus caracóis,
    ver como bate
    meu coração,
    escutar comigo
    uma canção
    e, com paixão, fazer amor.

    Vem…
    eu sou abelha tu és a flor,
    a rosa linda que tanto prezo,
    a deusa amada por quem eu rezo
    e aqui confesso
    ser dependente,
    agora e sempre,
    do teu amor.

    Abgalvão (In fantasias, amor e poesia)

  • Quando

    Quando a noite abre as cancelas
    Aos recintos das maldades,
    As bestas passam por elas
    Desfilando insanidades

    Vestem as vestes do medo
    Por mãos sinistras moldadas,
    Talhes com artes de enredo
    Linhas de corte cruzadas

    Corpos sem forma de gente,
    Olhos sem brilho nem cor,
    Marcas de perigo iminente
    Em passadeiras de horror

    Guiam-nos falsos conceitos
    Por becos sem simetrias,
    Usam, por falsos direitos,
    Armas de canos sem estrias

    E roubam, matam, violam
    Sem pontinha de remorso,
    Impunes! …Alguns desfilam
    Quais cabeçudos num corso.

    São as estrelas dum palco
    Entre cenários grotescos,
    Não usam cremes nem talco
    Nos rostos animalescos

    Há quem ache serem filhos
    Da exclusão social
    E que seguem por tais trilhos
    Por falta doutro ideal

    Contesto a conotação
    E a defesa dessa ideia,
    Pois elos há, de junção,
    Alheios a essa teia.

    Bandidos podem brotar
    De barracas ou mansões,
    Só na forma de julgar
    Existem contradições

    Quem pouco rouba é ladrão
    Julga-se e é condenado.
    Prende-se o reles vilão
    Num calabouço mofado

    Aos corruptos governantes
    Que gerem mal um País
    Há sempre as atenuantes
    Que pegaram de raiz

    Se dum banco for gestor
    E alguns milhões desviar…
    Meus amigos, por favor,
    Vamos ter de relevar

    É maganão insoluto
    Com muita astúcia e bagagem
    Que passa por impoluto
    Por ter casta e ter linhagem

    São menos contras que prós
    Ror de entrelinhas nas leis
    Que lhe desfazem os nós
    E… três e três… não são seis!

    Mas se a coisa não resulta
    Por uma força qualquer,
    Ao diabo faz consulta
    Sacrificando a mulher

    Há também o tal recurso,
    Sempre tão conveniente,
    Ao colega de percurso
    Que ocupa cargo influente

    Vibram varas de condão
    Entre dedos competentes,
    E em manhosa comunhão
    Encobrem-se os incidentes

    Deixando a urbe perplexa,
    Como em cenas de magia,
    È desta forma complexa
    Que da noite para o dia

    Se consegue transformar
    Grandes fossas d’indecências
    Em lagos a transbordar
    De tão falsas inocências!

    Abgalvão (In Olhares)

  • Passeei em ti...





    Passeei em ti…

    Passeei os dedos
    pela tua pele nua,
    branca e suave,
    que despida de medos
    se excita…
    e sequiosa de prazer
    tal como leito de rio seco
    que recebe a chuva
    se agita e sua!
    Como sábio ou sabido;
    desenhei hieróglifos
    ao sabor de gestos
    suaves e compassados
    nas paredes do desejo.
    Bordei taras nos teus seios…
    rendilhei flores no teu ventre
    e pintei sonhos coloridos
    nos teus pontos mais sensíveis
    e secretos.
    Passeei em ti…
    passeaste em mim…
    e descobrimos, mutuamente,
    (eu no teu corpo e tu no meu),
    estrelas de brilhos quentes.
    Retesaram-se nervos e tendões
    tangendo acordes melodiosos
    e sublimes
    como sons de violinos
    tocados por virtuosos.
    E nossos corpos
    enlaçados,
    abstraídos de tudo…
    cadenciados…
    dançaram, dançaram e dançaram
    com frenesim e paixão,
    em ritmo crescendo
    e em sintonia cardíaca
    a dança do amor.
    Depois…entrei em ti…
    plantei ternuras…
    desfolhei carinhos…
    adocei meus beijos
    com o mel dos teus…
    e tu te abriste como rosa
    esplendorosa
    ao sol de Abril.
    Apagamos as horas…
    amordaçamos o tempo
    que lá fora reclamava…
    e sem demora
    aticei-te o fogo,
    descaradamente…
    esse mesmo fogo intenso,
    labareda de prazer
    que há muito lavrava
    e para ti se escapava,
    desordenadamente,
    do centro de mim.

    Abgalvão (In fantasias, amor e poesia)

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