abgalvao888
Confiança masculino - 62 anos, Fernão Ferro, Portugal
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Caminhos da loucura
Caminhos da loucura
são punhais de pontas finas
rasgando a pele à ternura…
paralelos salientes
em calçadas sem estrutura…
corpos nus, vozes silentes,
ideias em confusão...
desejos mortos em esquinas
de velhos muros sem cal…
prazeres manipulados
em catres de penas duras…
artes de magos malditos
sem varinhas de condão.
São bebidas e tonturas,
cama à espera em hospital…
gestos desarticulados,
agonias e conflitos…
espanto dor e marasmo
entre o soluço e o espasmo.
Os caminhos da loucura
são corredores estreitos,
tortuosos, e em lonjura
mais longos que o próprio medo.
Os caminhos da loucura,
fruto de sonhos desfeitos;
são morte em corpo ‘inda são,
mortalha negra e enredo,
caixão de ideias sem nexo,
ponto de vista complexo…
e um vendaval permanente
a fustigar uma mente
com ventos de solidão.
Abgalvão (In alma vadia) -
Maria nome Maria mulher
Dedicado a todas as mulheres. Às Marias e não só!
Hei-de cantar o teu nome
Como canta o rouxinol,
Hei de gravá-lo no vento,
Bordá-lo num cachecol
Nas montanhas do meu peito,
Nas planuras da verdade,
Hei de gritá-lo a eito
Aos ventos da liberdade
Sobre cascalhos de esperança,
Entre espinhos da desgraça,
Entre cardos de ignorância
E o negro da fumaça…
Eu cantarei o teu nome
E plantarei uma flor!
Aí mesmo nesse ermo,
Para lá do eco e do medo
Onde o tempo não tem horas,
O cansaço não tem sombra
E a vida não tem razão…
Hei-de cantar o teu nome
E hei-de plantar uma flor!
Aí mesmo, nesse espaço,
Onde acaba a ambição,
Onde começa a certeza,
Onde a infância é velhice
E a velhice um triste fado…
Hei-de cantar o teu nome
E plantarei uma flor!
Até mesmo desse lado
Onde o sol também é fel,
Onde se canta com dor,
Onde o vento é mais cruel
E o sonho não tem lugar…
Hei-de cantar o teu nome
E hei-de plantar uma flor!
Aí mesmo nesse ponto,
Onde há pranto em cada canto,
Onde o pão tem mais suor,
Onde a sede é mais sofrida
E a fome já tem bolor…
Eu cantarei o teu nome
E plantarei uma flor!
Verei crescer essa flor
Entre prados e hortejos
Regada com muito amor
Mimada com muitos beijos
E entre teus alvos lençóis
Colados teu corpo e meu,
Te afagando os caracóis…
Hei-de cantar o teu nome,
Maria… Maria… Maria…
Eternamente Maria
Amada, amante, mulher!
Abgalvão (In Fantasias, amor e poesia) -
Meu amor primeiro
Olhando os retratos que guardo, de então…
De memória vivi registos, lembranças,
Dos tempos bonitos da nossa paixão.
Reli, soluçando, aquele poema
De amor que escrevi e tinha por tema
Teus cabelos negros, tuas longas tranças
Revivi por momentos os beijos trocados
Sentindo, inclusive, teu cheiro, teu gosto.
Invadiu-me o calor de quando abraçados
Fazíamos amor, após o sol-posto,
Deitados na praia, na Ilha, em Luanda,
Em cama de areia, sem passar por *ciranda
Me dei à lua quando, aluada, por mim
Chamou. Vivi paixões e ilusões senti
Também. Andei perdido, eu bem sei que sim
Dei tempo ao tempo e pude aprender
Que amor bonito como o sentido por ti
É amor… AMOR! Não pode morrer!
Por onde é que andas meu amor antigo,
Meu amor de sempre, meu amor primeiro?
Por onde é que espalhas o doce perfume
Que, nua, exalavas de teu corpo lume
Pulsando desejos por todo ele inteiro,
E me alucinava ao deitar-me contigo?
Ai como eu sinto o doer desta saudade
Que me reabre a ferida que nunca curei.
Eu sei que assumi, (sem fugir à verdade),
Que fui castrador, infiel, inconstante…
Cedi a caprichos, não fui tolerante,
E por isso perdi-te, meu amor, bem sei!
Manda um recado, uma carta, um postal,
Dá-me, por favor, uma pista, um sinal,
E manda pelo vento quando ele te beijar,
Ou pela chuva quando ela aparecer.
Embrulha teus beijos quando o sol se esconder
E vem com a noite meu sonho emprenhar!
* ciranda (entenda-se como peneira grossa e grande usada para separar o cascalho da areia)
Abgalvão (In fantasias, amor e poesia) -
Quem eu quero não me quer
Naquela praia deserta
Sobem e descem marés,
Voa o sonho em parte incerta
E as ondas molham-me os pés
Moram névoas nos meus olhos,
A azia rói-me as entranhas,
Minha sorte bate em escolhos
Que emergem por artimanhas
Teu amor foge de mim,
Tua boca não me quer,
Porque eu quero tanto assim
Quem eu quero e não me quer
Lambe-me as feridas, o vento,
O orvalho rega a manhã,
O sol dormita ao relento
Com as dunas por divã
Guia-me os passos, a lua,
Beijam-me os lábios, as sombras,
A noite desfila nua
Quando no escuro me assombras
Teu amor foge de mim,
Tua boca não me quer,
Porque eu quero tanto assim
Quem eu quero e não me quer
Tenho nervoso nos dedos,
Palpitam-me os sentimentos,
Misturo a dor com os medos
E como-as sem condimentos
Procuro ver-te no espaço
Que delimita a esperança,
Tu foges do meu abraço
E eu bebo desconfiança
Teu amor foge de mim,
Tua boca não me quer,
Porque eu quero tanto assim
Quem eu quero e não me quer
Neste peito, com saudade,
Bate forte um coração,
Luz acesa de ansiedade
Fogo de amor e paixão
Essa luz que me ilumina,
Esse fogo que me aquece,
São a força que domina
E minha raiva arrefece
Teu amor foge de mim,
Tua boca não me quer,
Porque eu quero tanto assim
Quem eu quero e não me quer.
Abgalvão (In fantasias, amor e poesia) -
Paixão antiga
Enroscaste tua mão na minha
sedenta de afecto
buscando calor
e ao som dos corações batendo
dançaram carícias
cantou o amor.
Humedeci teus lábios com a frescura
dum beijo
que, tremendo, recolhes…
embebeda-se a ânsia,
a secura se afoga
e tu nem percebes…
que a paixão era antiga,
no peito uma ferida
e por isso doía…
era faca cravada,
um punhal, uma espada,
e por isso sentia
que, tarde ou cedo,
descobririas que em mim
este amor se escondia.
Voaram suspiros
que o vento levou
como estrelas cadentes
libertas de nós
e entre abraços, carícias,
sussurros de voz,
teu corpo desnudo
ao meu se entregou.
A noite, entretanto,
na falésia caiu
e a lua, feiticeira,
um manto teceu,
em vermelho carmim,
como nunca se viu;
com corações bordados
o meu e o teu.
A lua chegou, subiu a maré,
e o mar afogou
as marcas deixadas
naquele areal,
onde ambos sentimos
e também descobrimos
que a paixão era antiga
e ali renascia
de forma normal.
Abgalvão (In Fantasias, amor e poesia) -
Paixões de risco
Cintilam ilusões
Quando se enlaçam olhares
E inventam-se razões
Que alucinam corações
Desatentos e carentes.
Engordam-se vontades,
Entre beijos de paixão,
Bem mais doces do que ardentes…
Agita-se a libido
Com carícias descaradas…
E transpiram-se desejos
Entre sonhos coloridos.
Mas quando a porta de entrada,
Ao morrer a madrugada,
Vira saída apressada;
Carpem-se realidades
Entre as dobras dos lençóis…
Toca a sirene do medo…
Rebobina-se o enredo…
E na cama dos soluços,
Com os sonhos destruídos…
A esperança engravidada
Pare dor e decepção
Sem apoio ao domicilio.
Abgalvão (In Palavras que tocam) -
Desatino
Não posso, não quero,
nem consigo esquecer
o sabor do teu corpo
na noite passada.
Por nada trocaria
esse grato prazer
que me deste
submissa e excitada.
Sem drogas ou “merdas”
a turvar nossos sentidos,
rasgamos a madrugada
sem mapas, relógio, limites,
nem sentidos proibidos…
mas com cio!
Muito cio!
E loucura sem rebites
instigando o desafio.
Deitados num campo
de centeio,
corpos nus expostos ao luar,
cavalgamos, sem rédeas
nem freio,
como cavalos selvagens
que correm até extenuar.
Dominamos o cansaço e o torpor,
bebemos o suor dos nossos corpos
amorfos…
subimos, descemos,
trocamos amor,
afogamos beijos,
e no fim...
arrepio,
satisfação,
suspiro,
languidez!
Abgalvão (In Fantasias, amor e poesia) -
Vem
Vem acordar o meu prazer,
meu amor
reacender a chama inerte,
por favor,
adocicar o teu e meu,
nosso viver!
Vem…
fazer a história deste amor
recomeçar,
deitar teu corpo em minha rede
e aquecer
teu corpo frio no meu corpo
que o desejo
mantém latente e aquecido
p’la razão
de seres razão, força
e querer,
desta paixão.
Vem
matar o teu e o meu desejo
nesta hora,
deixar rolar aquele beijo
que demora,
selar um pacto entre nós dois
para durar.
Vem…
vem me abraçar!
Estender teu corpo
no meu leito,
colar teus seios
no meu peito,
fazer amor depois, depois,
e assim ficar!
Vem…
como andorinha
na primavera,
teu ninho aqui
ainda te espera,
vem!
O tempo é curto
e desespera,
está fria a noite, hoje,
lá fora,
a chuva cai, bem forte,
agora,
vem, vem meu amor,
Deixar teu cheiro
nos meus lençóis,
deixar que afague
teus caracóis,
ver como bate
meu coração,
escutar comigo
uma canção
e, com paixão, fazer amor.
Vem…
eu sou abelha tu és a flor,
a rosa linda que tanto prezo,
a deusa amada por quem eu rezo
e aqui confesso
ser dependente,
agora e sempre,
do teu amor.
Abgalvão (In fantasias, amor e poesia) -
Quando
Quando a noite abre as cancelas
Aos recintos das maldades,
As bestas passam por elas
Desfilando insanidades
Vestem as vestes do medo
Por mãos sinistras moldadas,
Talhes com artes de enredo
Linhas de corte cruzadas
Corpos sem forma de gente,
Olhos sem brilho nem cor,
Marcas de perigo iminente
Em passadeiras de horror
Guiam-nos falsos conceitos
Por becos sem simetrias,
Usam, por falsos direitos,
Armas de canos sem estrias
E roubam, matam, violam
Sem pontinha de remorso,
Impunes! …Alguns desfilam
Quais cabeçudos num corso.
São as estrelas dum palco
Entre cenários grotescos,
Não usam cremes nem talco
Nos rostos animalescos
Há quem ache serem filhos
Da exclusão social
E que seguem por tais trilhos
Por falta doutro ideal
Contesto a conotação
E a defesa dessa ideia,
Pois elos há, de junção,
Alheios a essa teia.
Bandidos podem brotar
De barracas ou mansões,
Só na forma de julgar
Existem contradições
Quem pouco rouba é ladrão
Julga-se e é condenado.
Prende-se o reles vilão
Num calabouço mofado
Aos corruptos governantes
Que gerem mal um País
Há sempre as atenuantes
Que pegaram de raiz
Se dum banco for gestor
E alguns milhões desviar…
Meus amigos, por favor,
Vamos ter de relevar
É maganão insoluto
Com muita astúcia e bagagem
Que passa por impoluto
Por ter casta e ter linhagem
São menos contras que prós
Ror de entrelinhas nas leis
Que lhe desfazem os nós
E… três e três… não são seis!
Mas se a coisa não resulta
Por uma força qualquer,
Ao diabo faz consulta
Sacrificando a mulher
Há também o tal recurso,
Sempre tão conveniente,
Ao colega de percurso
Que ocupa cargo influente
Vibram varas de condão
Entre dedos competentes,
E em manhosa comunhão
Encobrem-se os incidentes
Deixando a urbe perplexa,
Como em cenas de magia,
È desta forma complexa
Que da noite para o dia
Se consegue transformar
Grandes fossas d’indecências
Em lagos a transbordar
De tão falsas inocências!
Abgalvão (In Olhares) -
Passeei em ti...
Passeei em ti…
Passeei os dedos
pela tua pele nua,
branca e suave,
que despida de medos
se excita…
e sequiosa de prazer
tal como leito de rio seco
que recebe a chuva
se agita e sua!
Como sábio ou sabido;
desenhei hieróglifos
ao sabor de gestos
suaves e compassados
nas paredes do desejo.
Bordei taras nos teus seios…
rendilhei flores no teu ventre
e pintei sonhos coloridos
nos teus pontos mais sensíveis
e secretos.
Passeei em ti…
passeaste em mim…
e descobrimos, mutuamente,
(eu no teu corpo e tu no meu),
estrelas de brilhos quentes.
Retesaram-se nervos e tendões
tangendo acordes melodiosos
e sublimes
como sons de violinos
tocados por virtuosos.
E nossos corpos
enlaçados,
abstraídos de tudo…
cadenciados…
dançaram, dançaram e dançaram
com frenesim e paixão,
em ritmo crescendo
e em sintonia cardíaca
a dança do amor.
Depois…entrei em ti…
plantei ternuras…
desfolhei carinhos…
adocei meus beijos
com o mel dos teus…
e tu te abriste como rosa
esplendorosa
ao sol de Abril.
Apagamos as horas…
amordaçamos o tempo
que lá fora reclamava…
e sem demora
aticei-te o fogo,
descaradamente…
esse mesmo fogo intenso,
labareda de prazer
que há muito lavrava
e para ti se escapava,
desordenadamente,
do centro de mim.
Abgalvão (In fantasias, amor e poesia)