abgalvao888
Confiança masculino - 62 anos, Fernão Ferro, Portugal
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Estradas da má vida
A minha vida profissional obriga-me a constantes deslocações por algumas zonas do País, e tenho reparado que a prostituição na beira de estradas tem aumentado assustadoramente.
São cada vez mais jovens a recorrer a este tipo de vida, resultado, ao que penso, do desemprego, falta de meios de subsistência e descontrole na emigração.
Este meu trabalho não pretende, de forma alguma, acusar, humilhar ou rebaixar estas mulheres, antes pelo contrário, considero-as, também, vítimas da situação a que o País chegou.
Estradas de má vida
Por estradas onde passo, bem ligeiro,
Entre moitas e pinhais que se destacam;
Vê-se jovens se matando por dinheiro
E frustrados cidadãos que vícios matam
Seminua se passeia a humilhação
Pela fímbria do extenso matagal…
E o sexo sem prazer nem emoção
Se disfarça numa cena teatral
Vê-se as marcas da desgraça bem vincadas
Nos despojos desses corpos que se “impigem”…
Nos seus olhos o sombrio das porradas
Que os “ossos do ofício” lhes infligem
A miséria e a doença marcam pontos
Nesse jogo onde a vida é a roleta;
E o tempo, que é juiz, faz os descontos
Tira tempo, ao tempo resto, d’ampulheta
E reparo serem jovens raparigas
As que hoje se mais vêem nessa lida…
Flores sem viço que se escondem entre ortigas
Definhando pelas bermas da má vida
Não sou falso moralista nem rebaixo
A mulher que, por preciso, o corpo venda…
Mas condeno o chulo reles, vil e baixo
Que da pobre prostituta tira renda
As imagens que vos deixo, assim compostas
Sem controlo, como praga proliferam…
E na falta de projectos, as respostas
São as mesmas que outros, antes, já nos deram
São prostitutas, eu sei, muitos dirão
Que se lá estão é por vício ou por prazer;
Creio, porém, não seja essa a mor razão
Outra será, bem mais grave…é meu parecer!
Me constrange ver ao quanto a fome obriga
O que faz o desemprego ao ser humano…
E também, aqui confesso, o que me intriga
É um campo social tão desumano
Dos governos… as incúrias sucessivas
Legislando sem critérios nem matriz…
Deram azo a constantes e expressivas
Discrepâncias sociais neste país
Abgalvão -
Silêncio
Silêncio!
Permitam-me ouvir cantar os passarinhos
O farfalhar das ramagens dos pinheiros
O ranger das pás enormes dos moinhos
E o murmúrio das nascentes e ribeiros
Silêncio!
Deixem que eu escute bem o tom dos sinos
A sinfonia dos insectos no trigal
O eco bom das risadas dos meninos
O som das folhas dos presentes de Natal
Silêncio!
Quero ouvir, com atenção, a voz do vento
Para entender se esta noite me trará
Boas novas desse amor que reinvento
E que os sonhos me segredam… voltará!
Silêncio!
Deixem que eu esteja atento aos sons do mar
Aos sussurros intrigantes do jardim
E que possa, ainda assim, Deus escutar
P’ra silente lhe pedir… olhe por mim!
Silêncio!
Deixem-me escutar os sons da madrugada
O uivo do lobo em noite de lua
O canto do galo em nova alvorada
Ouvir-te e sentir-te, a meu lado… nua!
Silêncio… façam silêncio por favor
E deixem-me ouvir e sentir o amor!
Abgalvão (In palavras vivas…palavras de amor)
Aproveito para agradecer mais uma vez a simpatia dos vossos comentários anteriores.
Beijos e abraços. -
A brisa me trouxe
Há amores que se desencontram e se perdem, mas que, de tempos a tempos, se recordam com muita saudade.
A brisa me trouxe
A brisa me trouxe o sabor desse beijo
Do jogo d’amor que comigo fizeste
E em mim se instalou bem mais forte o desejo
Ter de novo o prazer que tive e tiveste
Só restam pedaços que o tempo não rói
Guardados no cofre das recordações…
Os velhos retratos que ao vê-los me dói
E um anel gravado com dois corações
A tarde pintou-se da cor da mulata
Vestindo lembranças, soprando calor,
Calor que me aquece e vira e revira
Acende a saudade de ti meu amor
Passaram-se os anos e as primaveras
Viraram Outonos mais frios e feios…
O amor morreu enfartado de esperas
E a paixão procurou prazer noutros seios
O tempo não pára, desejo não espera;
O sonho se abraça à moralidade…
O corpo envelhece e a mente se esmera
No sexo que faz com a realidade.
Abgalvão (In fantasias, amor e poesia) -
Mulher
Já foi escrito a alguns anos atrás mas com pequenas alterações que achei por bem fazer.
Mulher
Despe a roupa que te cobre
e descobre, mulher, a força
que em ti dominas.
Mostra teu corpo moldado,
com graça de esbelta corça…
esse teu ventre adornado
pelas mais belas colinas.
Mostra tudo que se esconde
por baixo das tuas rendas…
esses segredos que zelas
como se fossem oferendas.
Mostra teus frutos gulosos,
maduros,
que mil desejos despertam,
tão puros!
Solta esses seios
airosos
que do decote me espreitam
fogosos!
Mostra essa cor e beleza
quando despes o olhar…
mostra a alma, pura e nua,
onde se esconde a tristeza
que tanto sabes calar.
Mostra-te tal como és,
bela, fresca, ou felina…
ás vezes pura menina,
ás vezes grande mulher!
Mulher vida, mulher mãe,
mulher da rua, vivida…
p’rá vida mulher parida,
mulher terra, mulher chão…
mulher sofrida e dorida
mulher força, mulher pão.
Mulher flor, desabrochada,
acabada de colher…
aberta, desflorada,
fechada, discreta,
desfrutada, entreaberta…
bem mais regada ou mais seca…
flor tratada, flor cheirosa,
flor de estufa, reputada,
mais singela, mais formosa,
mais incauta ou dependente,
mais activa e independente…
para mim serás sempre
a mulher… MULHER!
obra-prima e apreciada.
Aqui estou mulher fêmea ….
aqui estou mulher flor …
querida amada ou amante,
aqui me tens, delirante,
aqui me tens a teus pés.
Abgalvão (In fantasias, amor e poesia) -
Há noites e noites!
A noite acontece e a velha cidade
se enfeita de luzes de todas as cores…
na rua se juntam vergonha e vaidade,
promessas, juras e alguns dissabores.
Há bares, motéis, discotecas, cinemas,
garotas sem graça com ar de adultas…
rapazes imberbes com grandes melenas
e tipos e tipas de origens ocultas.
Há risos e beijos de bocas pintadas
que alimentam sonhos, fecundam paixões…
os copos bebidos e as ervas fumadas
desnudam prazeres sem limitações.
Há moços que exibem as roupas de marca,
há moças desnudas com ar atrevido
e a dama madura que ouve e embarca
na banal cantada dum tipo sabido.
Há cheiros de essências florais e não só
que invadem narinas, atraem olhares…
olhos e rostos que de olhar metem dó
pelo exagero dos suplementares.
Há noites alegres e tristes bem mais…
noites com luz e muitas outras escuras…
noites d’angústia que alimentam os ais
e noites perfeitas com ceia e ternuras.
Há noites assentes em provas de amor
que acalmam a alma e o coração,
noites rasgadas planando ao sabor
de ventos que sopram calor e paixão.
Há noites gaiatas alegres e sãs
que se geram nos reinos da fantasia…
noites que parem excelentes manhãs
tal qual o poeta pare a poesia.
Mas há noites bem longas, feias, terríveis,
que ferem ou matam quem nelas se afoita…
e noites bem negras e imprevisíveis
p’ra quem no colo da noite se acoita.
São as noites de quem na escada do metro
sonha, acordado, com enchidos na grelha…
da mulher sem tino que fala co’espectro,
do homem que amou muito antes de velha.
A noite da dama, decorando a estrada,
do guarda que zela riquezas alheias…
a do Zé sem tecto cuja cruz pesada
macera-lhe os pés disformes, sem meias.
A noite da gata que aguarda, felina,
os ratos que saem dos canos d’esgoto…
do chulo que saca o viço à menina
do pulha que atrai, para o carro, o garoto.
As noites de medo que assustam quem tem
respeito p’la vida, quer d’outros, quer sua,
que mostra valores, que pugna pelo bem,
na noite não age, vive, ou actua.
A noite do grito na noite sem lua…
a do corpo que cai no chão vomitado…
do vulto fugindo no escuro da rua
após a facada no sentenciado.
Há noites que cheiram a enxofre e sangue
noites dos lobos da selva cidade…
noites daqueles que nos lodos do mangue
criam raízes de terror e maldade.
E há noites vividas sem sonhos nem horas…
noites de azar onde a vida se aposta
cavalgando bestas a toque d’esporas…
noites de merda, como o diabo gosta.
Há ais e suspiros na boca de alguém
na noite soando como uivo ou lamento…
monstros sinistros que chegam do além
e invadem, dos tolos, o pensamento.
Há drogas pesadas nas mãos de vilões…
corpos pelo chão ao veneno rendidos…
seringas e agulhas cavando infecções
demónios dançando em redor dos vencidos.
Abgalvão -
Louco será…
Gazes e fumos sufocam a terra…
Criam-se vírus que enfermam e matam…
Armas terríveis, engenhos de guerra
E drogas que alguns com elas s’enfartam
Gritam goelas, estúpidas vozes…
Muros se erguem em torno de vidas…
Vibram chicotes de olhos algozes
Lambe-se o medo que sangra das f’ridas.
Corre-se, louco, na estrada fatal…
Joga-se a alma no jogo da fama…
Troca-se a honra na banca imoral
Por insónias constantes na cama
Gestos obscenos fogem de mãos
Agredindo e humilhando… patéticos!
Isola-se a paz por motivos vãos
Em cofres blindados e herméticos.
Abrem-se valas compridas e fundas
Que engolem sonhos mal sejam paridos…
Criam-se ideias em mentes imundas
Duns tais verdadeiros doidos varridos.
Louco não é quem divaga ou delira…
Poeta que canta versos à lua…
Louco será todo aquele que interfira
Contra a vida de alguém e a destrua!
Louco é quem manda e desmanda sem pejo…
Quem à fonte tira a sua pureza
Sem ter a noção nem simples lampejo
Da merda que faz contra a natureza.
Abgalvão -
Aos meus amigos
A todos quantos leem e apreciam o que escrevo e principalmente aos que manifestam o seu agrado atrvés de simpáticos comentários, os meus sinceros agradecimentos.
Beijos e abraços -
A noite e a solidão
No seu manto negro a noite transporta
Momentos, lembranças, ciúme, temor…
Fogueiras que a vida ateia e suporta
Em forno fundido na forja do amor
E tarde, bem tarde, quando ela se agita
Em já velhos colchões de penas sentidas,
Chega a dor, se deita, e o corpo levita
Entre chão espada e vidas fingidas
Ondas de choque abanam estruturas
Matam princípios e a própria razão…
Destroem raízes, provocam fissuras
Arrastando vidas para a solidão.
Abgalvão -
A carta rasgada
A tarde morria enforcada nos fios
Da teia d’arame que o homem teceu…
Guiavam-me os passos pensamentos frios
P’la estreita calçada que ao tempo cedeu
Rodando às bolandas, submissos ao vento,
Fragmentos impressos, por mãos que não sei,
Tolheram-me os passos e num gesto lento
Apanhei alguns e a lê-los me dei
Palavras escritas, desgostos d’alguém
Amores desfeitos, arrufo ou traição…
Destroços de vida aqui e além
Na carta rasgada espalhada no chão
Sentia-se amor na letra tremida
Expressa a angústia de quem a escreveu …
P´la forma rasgada… a mão ressentida
De quem a rasgou e quiçá nem a leu.
Abgalvão -
Mensagem de amigo
Não mates os sonhos que te invadem a mente
Nunca negues o colo a quem o merece
Não rejeites amor cala o ódio e consente
O abraço e o beijo que a vida te oferece.
Abgalvão