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Confiança masculino - 62 anos, Fernão Ferro, Portugal


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  • Estradas da má vida



    A minha vida profissional obriga-me a constantes deslocações por algumas zonas do País, e tenho reparado que a prostituição na beira de estradas tem aumentado assustadoramente.
    São cada vez mais jovens a recorrer a este tipo de vida, resultado, ao que penso, do desemprego, falta de meios de subsistência e descontrole na emigração.
    Este meu trabalho não pretende, de forma alguma, acusar, humilhar ou rebaixar estas mulheres, antes pelo contrário, considero-as, também, vítimas da situação a que o País chegou.

    Estradas de má vida

    Por estradas onde passo, bem ligeiro,
    Entre moitas e pinhais que se destacam;
    Vê-se jovens se matando por dinheiro
    E frustrados cidadãos que vícios matam

    Seminua se passeia a humilhação
    Pela fímbria do extenso matagal…
    E o sexo sem prazer nem emoção
    Se disfarça numa cena teatral

    Vê-se as marcas da desgraça bem vincadas
    Nos despojos desses corpos que se “impigem”…
    Nos seus olhos o sombrio das porradas
    Que os “ossos do ofício” lhes infligem

    A miséria e a doença marcam pontos
    Nesse jogo onde a vida é a roleta;
    E o tempo, que é juiz, faz os descontos
    Tira tempo, ao tempo resto, d’ampulheta

    E reparo serem jovens raparigas
    As que hoje se mais vêem nessa lida…
    Flores sem viço que se escondem entre ortigas
    Definhando pelas bermas da má vida

    Não sou falso moralista nem rebaixo
    A mulher que, por preciso, o corpo venda…
    Mas condeno o chulo reles, vil e baixo
    Que da pobre prostituta tira renda

    As imagens que vos deixo, assim compostas
    Sem controlo, como praga proliferam…
    E na falta de projectos, as respostas
    São as mesmas que outros, antes, já nos deram

    São prostitutas, eu sei, muitos dirão
    Que se lá estão é por vício ou por prazer;
    Creio, porém, não seja essa a mor razão
    Outra será, bem mais grave…é meu parecer!

    Me constrange ver ao quanto a fome obriga
    O que faz o desemprego ao ser humano…
    E também, aqui confesso, o que me intriga
    É um campo social tão desumano

    Dos governos… as incúrias sucessivas
    Legislando sem critérios nem matriz…
    Deram azo a constantes e expressivas
    Discrepâncias sociais neste país

    Abgalvão

  • Silêncio



    Silêncio!
    Permitam-me ouvir cantar os passarinhos
    O farfalhar das ramagens dos pinheiros
    O ranger das pás enormes dos moinhos
    E o murmúrio das nascentes e ribeiros

    Silêncio!
    Deixem que eu escute bem o tom dos sinos
    A sinfonia dos insectos no trigal
    O eco bom das risadas dos meninos
    O som das folhas dos presentes de Natal

    Silêncio!
    Quero ouvir, com atenção, a voz do vento
    Para entender se esta noite me trará
    Boas novas desse amor que reinvento
    E que os sonhos me segredam… voltará!

    Silêncio!
    Deixem que eu esteja atento aos sons do mar
    Aos sussurros intrigantes do jardim
    E que possa, ainda assim, Deus escutar
    P’ra silente lhe pedir… olhe por mim!

    Silêncio!
    Deixem-me escutar os sons da madrugada
    O uivo do lobo em noite de lua
    O canto do galo em nova alvorada
    Ouvir-te e sentir-te, a meu lado… nua!

    Silêncio… façam silêncio por favor
    E deixem-me ouvir e sentir o amor!

    Abgalvão (In palavras vivas…palavras de amor)

    Aproveito para agradecer mais uma vez a simpatia dos vossos comentários anteriores.
    Beijos e abraços.

  • A brisa me trouxe



    Há amores que se desencontram e se perdem, mas que, de tempos a tempos, se recordam com muita saudade.

    A brisa me trouxe

    A brisa me trouxe o sabor desse beijo
    Do jogo d’amor que comigo fizeste
    E em mim se instalou bem mais forte o desejo
    Ter de novo o prazer que tive e tiveste

    Só restam pedaços que o tempo não rói
    Guardados no cofre das recordações…
    Os velhos retratos que ao vê-los me dói
    E um anel gravado com dois corações

    A tarde pintou-se da cor da mulata
    Vestindo lembranças, soprando calor,
    Calor que me aquece e vira e revira
    Acende a saudade de ti meu amor

    Passaram-se os anos e as primaveras
    Viraram Outonos mais frios e feios…
    O amor morreu enfartado de esperas
    E a paixão procurou prazer noutros seios

    O tempo não pára, desejo não espera;
    O sonho se abraça à moralidade…
    O corpo envelhece e a mente se esmera
    No sexo que faz com a realidade.

    Abgalvão (In fantasias, amor e poesia)

  • Mulher

    Já foi escrito a alguns anos atrás mas com pequenas alterações que achei por bem fazer.

    Mulher

    Despe a roupa que te cobre
    e descobre, mulher, a força
    que em ti dominas.
    Mostra teu corpo moldado,
    com graça de esbelta corça…
    esse teu ventre adornado
    pelas mais belas colinas.
    Mostra tudo que se esconde
    por baixo das tuas rendas…
    esses segredos que zelas
    como se fossem oferendas.
    Mostra teus frutos gulosos,
    maduros,
    que mil desejos despertam,
    tão puros!
    Solta esses seios
    airosos
    que do decote me espreitam
    fogosos!
    Mostra essa cor e beleza
    quando despes o olhar…
    mostra a alma, pura e nua,
    onde se esconde a tristeza
    que tanto sabes calar.
    Mostra-te tal como és,
    bela, fresca, ou felina…
    ás vezes pura menina,
    ás vezes grande mulher!
    Mulher vida, mulher mãe,
    mulher da rua, vivida…
    p’rá vida mulher parida,
    mulher terra, mulher chão…
    mulher sofrida e dorida
    mulher força, mulher pão.
    Mulher flor, desabrochada,
    acabada de colher…
    aberta, desflorada,
    fechada, discreta,
    desfrutada, entreaberta…
    bem mais regada ou mais seca…
    flor tratada, flor cheirosa,
    flor de estufa, reputada,
    mais singela, mais formosa,
    mais incauta ou dependente,
    mais activa e independente…
    para mim serás sempre
    a mulher… MULHER!
    obra-prima e apreciada.
    Aqui estou mulher fêmea ….
    aqui estou mulher flor …
    querida amada ou amante,
    aqui me tens, delirante,
    aqui me tens a teus pés.

    Abgalvão (In fantasias, amor e poesia)

  • Há noites e noites!

    A noite acontece e a velha cidade
    se enfeita de luzes de todas as cores…
    na rua se juntam vergonha e vaidade,
    promessas, juras e alguns dissabores.
    Há bares, motéis, discotecas, cinemas,
    garotas sem graça com ar de adultas…
    rapazes imberbes com grandes melenas
    e tipos e tipas de origens ocultas.

    Há risos e beijos de bocas pintadas
    que alimentam sonhos, fecundam paixões…
    os copos bebidos e as ervas fumadas
    desnudam prazeres sem limitações.
    Há moços que exibem as roupas de marca,
    há moças desnudas com ar atrevido
    e a dama madura que ouve e embarca
    na banal cantada dum tipo sabido.

    Há cheiros de essências florais e não só
    que invadem narinas, atraem olhares…
    olhos e rostos que de olhar metem dó
    pelo exagero dos suplementares.
    Há noites alegres e tristes bem mais…
    noites com luz e muitas outras escuras…
    noites d’angústia que alimentam os ais
    e noites perfeitas com ceia e ternuras.

    Há noites assentes em provas de amor
    que acalmam a alma e o coração,
    noites rasgadas planando ao sabor
    de ventos que sopram calor e paixão.
    Há noites gaiatas alegres e sãs
    que se geram nos reinos da fantasia…
    noites que parem excelentes manhãs
    tal qual o poeta pare a poesia.

    Mas há noites bem longas, feias, terríveis,
    que ferem ou matam quem nelas se afoita…
    e noites bem negras e imprevisíveis
    p’ra quem no colo da noite se acoita.
    São as noites de quem na escada do metro
    sonha, acordado, com enchidos na grelha…
    da mulher sem tino que fala co’espectro,
    do homem que amou muito antes de velha.

    A noite da dama, decorando a estrada,
    do guarda que zela riquezas alheias…
    a do Zé sem tecto cuja cruz pesada
    macera-lhe os pés disformes, sem meias.
    A noite da gata que aguarda, felina,
    os ratos que saem dos canos d’esgoto…
    do chulo que saca o viço à menina
    do pulha que atrai, para o carro, o garoto.

    As noites de medo que assustam quem tem
    respeito p’la vida, quer d’outros, quer sua,
    que mostra valores, que pugna pelo bem,
    na noite não age, vive, ou actua.
    A noite do grito na noite sem lua…
    a do corpo que cai no chão vomitado…
    do vulto fugindo no escuro da rua
    após a facada no sentenciado.

    Há noites que cheiram a enxofre e sangue
    noites dos lobos da selva cidade…
    noites daqueles que nos lodos do mangue
    criam raízes de terror e maldade.
    E há noites vividas sem sonhos nem horas…
    noites de azar onde a vida se aposta
    cavalgando bestas a toque d’esporas…
    noites de merda, como o diabo gosta.

    Há ais e suspiros na boca de alguém
    na noite soando como uivo ou lamento…
    monstros sinistros que chegam do além
    e invadem, dos tolos, o pensamento.
    Há drogas pesadas nas mãos de vilões…
    corpos pelo chão ao veneno rendidos…
    seringas e agulhas cavando infecções
    demónios dançando em redor dos vencidos.

    Abgalvão

  • Louco será…

    Gazes e fumos sufocam a terra…
    Criam-se vírus que enfermam e matam…
    Armas terríveis, engenhos de guerra
    E drogas que alguns com elas s’enfartam

    Gritam goelas, estúpidas vozes…
    Muros se erguem em torno de vidas…
    Vibram chicotes de olhos algozes
    Lambe-se o medo que sangra das f’ridas.

    Corre-se, louco, na estrada fatal…
    Joga-se a alma no jogo da fama…
    Troca-se a honra na banca imoral
    Por insónias constantes na cama

    Gestos obscenos fogem de mãos
    Agredindo e humilhando… patéticos!
    Isola-se a paz por motivos vãos
    Em cofres blindados e herméticos.

    Abrem-se valas compridas e fundas
    Que engolem sonhos mal sejam paridos…
    Criam-se ideias em mentes imundas
    Duns tais verdadeiros doidos varridos.

    Louco não é quem divaga ou delira…
    Poeta que canta versos à lua…
    Louco será todo aquele que interfira
    Contra a vida de alguém e a destrua!

    Louco é quem manda e desmanda sem pejo…
    Quem à fonte tira a sua pureza
    Sem ter a noção nem simples lampejo
    Da merda que faz contra a natureza.

    Abgalvão

  • Aos meus amigos

    A todos quantos leem e apreciam o que escrevo e principalmente aos que manifestam o seu agrado atrvés de simpáticos comentários, os meus sinceros agradecimentos.

    Beijos e abraços

  • A noite e a solidão

    No seu manto negro a noite transporta
    Momentos, lembranças, ciúme, temor…
    Fogueiras que a vida ateia e suporta
    Em forno fundido na forja do amor

    E tarde, bem tarde, quando ela se agita
    Em já velhos colchões de penas sentidas,
    Chega a dor, se deita, e o corpo levita
    Entre chão espada e vidas fingidas

    Ondas de choque abanam estruturas
    Matam princípios e a própria razão…
    Destroem raízes, provocam fissuras
    Arrastando vidas para a solidão.

    Abgalvão

  • A carta rasgada

    A tarde morria enforcada nos fios
    Da teia d’arame que o homem teceu…
    Guiavam-me os passos pensamentos frios
    P’la estreita calçada que ao tempo cedeu

    Rodando às bolandas, submissos ao vento,
    Fragmentos impressos, por mãos que não sei,
    Tolheram-me os passos e num gesto lento
    Apanhei alguns e a lê-los me dei

    Palavras escritas, desgostos d’alguém
    Amores desfeitos, arrufo ou traição…
    Destroços de vida aqui e além
    Na carta rasgada espalhada no chão

    Sentia-se amor na letra tremida
    Expressa a angústia de quem a escreveu …
    P´la forma rasgada… a mão ressentida
    De quem a rasgou e quiçá nem a leu.

    Abgalvão

  • Mensagem de amigo

    Não mates os sonhos que te invadem a mente
    Nunca negues o colo a quem o merece
    Não rejeites amor cala o ódio e consente
    O abraço e o beijo que a vida te oferece.

    Abgalvão

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