_matsi
Confiança masculino - 30 anos, Valongo, Portugal
Blog 156
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Corpo-mundo
Que caminhos do teu corpo não conheço
À sombra de que vales não dormi,
Que montanhas não escalei, que lantejoulas
Não abarquei nos olhos dilatados,
Que torrentes não passei, que rios fundos
A nudez do meu corpo não transpôs,
Que praias perfumadas não pisei,
Que selvas e jardins, que descampados ?
"poesia de: José Saramago"
(pintura de: artista desconhecido)
...(!) , quero so acrescentar aqui uma breve nota a todas/os amigas/os que me visitam que o carinho e amizade prevalecem intactos ... e agradeço o carinho com q sempre me trataram, mas por motivos de força maior nao tenho podido estar tao presente como antes... a todos mil abraços e bjitos!! -
Um dia
De súbito, entre a sombria
roda dos dias iguais,
às vezes sucede um dia
que se distingue dos mais.
É um dia raro, feito
à medida do teu peito,
onde o meu busca repouso.
Um dia claro, luminoso
e sobre todos perfeito.
Um dia contra o cinzento
correr dos dias iguais,
no qual me invento e te invento
para sermos o momento
que não findará jamais.
"poesia de: Torquato da Luz"
(pintura de: Danièle Severi) -
...o outro lado da palavra(!)
Preciso do teu silêncio
cúmplice sobre minhas falhas.
Não fale.
Um sopro, a menor vogal pode me desamparar.
E se eu abrir a boca minha alma vai rachar.
O silêncio, aprendo, pode construir. É um modo
denso/tenso - de coexistir.
Calar, às vezes, é fina forma de amar.
"poesia de: Affonso Romano de Sant'Anna (silencio amoroso)"
(imagem de: pesquisa na net*) -
Espelho (...sem reflexo)
O que sobrou de mim são essas sombras
Sobrada sobra, cinza dos minutos,
Que me alimenta os ossos da memória.
Nessa voragem vaga, um mar de calma
Lambendo vem a pressa em que me aposto
Na duração que escorre nessa arena.
Do fim regresso fera não domada
Ao mesmo pouso de ave renascida
Para o sol da surpresa nas janelas
Escancarando um solo transmutado.
De baixo para cima é que renovo
As vestes da sintaxe que componho
Clara inversão da jaula das palavras
Para fechar sem chave a minha sina.
Para fechar sem chave a minha sina
Clara inversão da jaula das palavras
As vestes da sintaxe que componho
De baixo para cima é que renovo.
Escancarando um solo transmutado
Para o sol da surpresa nas janelas
Ao mesmo pouso de ave renascida
Do fim regresso fera não domada.
Na duração que escorre nessa arena
Lambendo vem a pressa em que me aposto.
Nessa voragem, vaga um mar de calma
Que me alimenta os ossos da memória.
Sobrada sobra, cinza dos minutos,
O que sobrou de mim são essas sombras.
"poesia de: Aníbal Beça"
(pintura de: Pablo Picasso) -
A sofreguidão de um instante
Tudo renegarei menos o afecto,
e trago um ceptro e uma coroa,
o primeiro de ferro, a segunda de urze,
para ser o rei efémero
desse amor único e breve
que se dilui em partidas
e se fragmenta em perguntas
iguais às das amantes
que a claridade atordoa e converte.
Deixa-me reinar em ti
o tempo apenas de um relâmpago
a incendiar a erva seca dos cumes.
E se tiver que montar guarda,
que seja em redor do teu sono,
num êxtase de lábios sobre a relva,
num delírio de beijos sobre o ventre,
num assombro de dedos sob a roupa.
Eu estava morto e não sabia, sabes,
que há um tempo dentro deste tempo
para renascermos com os corais
e sermos eternos na sofreguidão de um instante.
"poesia de: José Jorge Letria"
(pintura de: Ismael Nery) -
... no crivo da memória (dum ponto final.)
.
..
tudo é fácil quando a folha
se abre e do seu âmago
emerge
a sílaba
a palavra
o verbo
génese
somam.se as frases
às linhas
necessárias
ao texto
desce.se ao fundo da página
à nota de rodapé
e
remete.se tudo à conta
dum louco ponto final
o ocaso traduz um acaso no crivo da memória
...
a loucura.
"poesia de: Gabriela R. Martins"
(escultura de: artista desconhecido) -
Nua... (libertando os mistérios...(!)
Porque me despes completamente
sem que eu nem perceba…
E quando nua
por incrível que pareça
sou mais pura…
Porque vou ao teu encontro
despojada de critérios…
liberto os mistérios
sem perder o encanto
do prazer…
Porque
quando nua
sou única
e exclusivamente
tua…
"poesia de: Isabel Machado" -
O caminho da faca ...(!)
parte em arco
rumo ao corpo amado
flecha a fera, exposta
à chaga
cruza a dor, o sonho
escuta
zunindo a lâmina
flamejante alcança
artérias e vasos
aquedutos pontes
parte em seta
rumo ao corpo amado
serena ira, ao amor
alcança
desdobra a carne
desnuda a veia
instala certeira
a eternidade
pára qual âncora
dentro do corpo amado
ferina flor, ao corpo
planta
"poesia de: Cida Pedrosa"
(pintura de: artista desconhecido) -
... num gesto de despedida ... (!)
Um cair de cabelos nos teus ombros,
um suspiro preso à lembrança que
ficou, um brilho que se demora nos
olhos à janela, um eco que não passa
na memória de um murmúrio, o
abraço em que o tempo se suspende,
a voz que dança por entre ruídos e
silêncio, as mãos que não se libertam
num gesto de despedida, lábios que
outros lábios procuram, uma luz
que alastra na sombra que desce,
e uma sombra que se ilumina quando
a noite já cresce: tu, sonho que
faz real a realidade com que te sonho.
"poesia de: Nuno Júdice"
(image de: pesquisa na net) -
Povo Jóia
Até às pedras das ruas
posso fazer um poema,
Porque as pedras sempre nuas,
Nunca tiveram o dilema,
Por a pedra mais pequena
Não deixar de ser quem era.
Por muitos já foi pisada,
Até já pontapeada,
Por humores que não defino.
Pedra pequena mais sofre,
Tal como sofre o menino.
Não tem culpa por nascer.
Nem sequer por ser pequena,
Mas na vida quem ordena,
São os ricos, poderosos
Que em actos vergonhosos,
Não sentem dignidade
E pisam sem querer saber,
Das pedras dessa cidade,
Que ajudaram a erguer
P`ra sua comodidade.
"poesia de: Baltazar Branco" ...