<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<!-- generator="FeedCreator 1.7.2" -->
<rss version="2.0"  xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" >
    <channel>
        <title>O blog do(a) Paulo Filipe</title>
        <description>O blog do(a) Paulo Filipe</description>
        <link>http://pt.netlog.com/Paulo_S_F/blog</link>
        <lastBuildDate>Fri, 27 Nov 2009 14:31:53 UT</lastBuildDate>
        <generator>FeedCreator 1.7.2</generator>
        <image>
            <url>http://pt.netlogstatic.com/p/tt/010/966/10966196.jpg</url>
            <title>Paulo_S_F</title>
            <link>http://pt.netlog.com/Paulo_S_F</link>
            <description>Paulo_S_F</description>
        </image>
        <item>
            <title>Bernardo Soares (Fernando Pessoa)</title>
            <link>http://pt.netlog.com/Paulo_S_F/blog/blogid=1725887</link>
            <description>Quer pouco, terás tudo.&lt;br /&gt;Quer nada: serás livre.&lt;br /&gt;O mesmo amor que tenham&lt;br /&gt;Por nós, quer-nos, oprime-nos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--------------------------------------------------------------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca a alheia vontade, inda que grata,&lt;br /&gt;Cumpras por própria. Manda no que fazes,&lt;br /&gt;Nem de ti mesmo servo.&lt;br /&gt;Niguém te dá quem és. Nada te mude.&lt;br /&gt;Teu íntimo destino involuntário&lt;br /&gt;Cumpre alto. Sê teu filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--------------------------------------------------------------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para ser grande, sê inteiro: nada&lt;br /&gt;Teu exagera ou exclui.&lt;br /&gt;Sê todo em cada coisa. Põe quanto és&lt;br /&gt;No mínimo que fazes.&lt;br /&gt;Assim em cada lago a lua toda&lt;br /&gt;Brilha, porque alta vive.</description>
            <author>Paulo_S_F</author>
            <pubDate>Thu, 14 May 2009 10:12:43 UT</pubDate>
        </item>
        <item>
            <title>A injustiça avança hoje a passo firme</title>
            <link>http://pt.netlog.com/Paulo_S_F/blog/blogid=1662918</link>
            <description>A injustiça avança hoje a passo firme &lt;br /&gt;Os tiranos fazem planos para dez mil anos &lt;br /&gt;O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são &lt;br /&gt;Nenhuma voz além da dos que mandam &lt;br /&gt;E em todos os mercados proclama a exploração; &lt;br /&gt;isto é apenas o meu começo &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem &lt;br /&gt;Aquilo que nòs queremos nunca mais o alcançaremos &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem ainda está vivo não diga: nunca &lt;br /&gt;O que é seguro não é seguro &lt;br /&gt;As coisas não continuarão a ser como são &lt;br /&gt;Depois de falarem os dominantes &lt;br /&gt;Falarão os dominados &lt;br /&gt;Quem pois ousa dizer: nunca &lt;br /&gt;De quem depende que a opressão prossiga? De nòs &lt;br /&gt;De quem depende que ela acabe? Também de nòs &lt;br /&gt;O que é esmagado que se levante! &lt;br /&gt;O que está perdido, lute! &lt;br /&gt;O que sabe ao que se chegou, que há aì que o retenha &lt;br /&gt;E nunca será: ainda hoje &lt;br /&gt;Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bertold Brecht&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PS: Será que o Brecht saberia da voltas que o mundo já deu e de todas as poderá dar???</description>
            <author>Paulo_S_F</author>
            <pubDate>Wed, 11 Mar 2009 15:45:38 UT</pubDate>
        </item>
        <item>
            <title>Se O Homem Fosse</title>
            <link>http://pt.netlog.com/Paulo_S_F/blog/blogid=1572204</link>
            <description>Se o homem fosse, como deveria ser, &lt;br /&gt;Não um animal doente, mas o mais perfeito dos animais, &lt;br /&gt;Animal directo e não indirecto, &lt;br /&gt;Devia ser outra a sua forma de encontrar um sentido às cousas, &lt;br /&gt;Outra e verdadeira. &lt;br /&gt;Devia haver adquirido um sentido do «conjunto»; &lt;br /&gt;Um sentido como ver e ouvir do «total» das cousas &lt;br /&gt;E não, como temos, um pensamento do «conjunto»; &lt;br /&gt;E não, como temos, uma ideia, do «total» das cousas. &lt;br /&gt;E assim – veríamos – não teríamos noção do «conjunto» ou do «total», &lt;br /&gt;Porque o sentido do «total» ou do «conjunto» não vem de, um total ou de um conjunto &lt;br /&gt;Mas da verdadeira Natureza talvez nem todo nem partes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto Caeiro</description>
            <author>Paulo_S_F</author>
            <pubDate>Tue, 16 Dec 2008 22:16:53 UT</pubDate>
        </item>
        <item>
            <title>Falas De Civilização</title>
            <link>http://pt.netlog.com/Paulo_S_F/blog/blogid=1572070</link>
            <description>Falas de civilização, e de não dever ser, &lt;br /&gt;Ou de não dever ser assim. &lt;br /&gt;Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos, &lt;br /&gt;Com as cousas humanas postas desta maneira. &lt;br /&gt;Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos. &lt;br /&gt;Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor. &lt;br /&gt;Escuto sem te ouvir. &lt;br /&gt;Para que te quereria eu ouvir? &lt;br /&gt;Ouvindo-te nada ficaria sabendo. &lt;br /&gt;Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo. &lt;br /&gt;Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres. &lt;br /&gt;Ai de ti e de todos que levam a vida &lt;br /&gt;A querer inventar a máquina de fazer felicidade! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto Caeiro</description>
            <author>Paulo_S_F</author>
            <pubDate>Tue, 16 Dec 2008 20:10:58 UT</pubDate>
        </item>
        <item>
            <title>E ASSIM EM NÍNIVE</title>
            <link>http://pt.netlog.com/Paulo_S_F/blog/blogid=1565753</link>
            <description>&amp;quot;Sim! Sou um poeta e sobre minha tumba&lt;br /&gt;Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas&lt;br /&gt;E os homens, mirto, antes que a noite&lt;br /&gt;Degole o dia com a espada escura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;quot;Veja! não cabe a mim&lt;br /&gt;Nem a ti objetar,&lt;br /&gt;Pois o costume é antigo&lt;br /&gt;E aqui em Nínive já observei&lt;br /&gt;Mais de um cantor passar e ir habitar&lt;br /&gt;O horto sombrio onde ninguém perturba&lt;br /&gt;Seu sono ou canto.&lt;br /&gt;E mais de um cantou suas canções&lt;br /&gt;Com mais arte e mais alma do que eu;&lt;br /&gt;E mais de um agora sobrepassa&lt;br /&gt;Com seu laurel de flores&lt;br /&gt;Minha beleza combalida pelas ondas,&lt;br /&gt;Mas eu sou poeta e sobre minha tumba&lt;br /&gt;Todos os homens hão de espalhar pétalas de rosas&lt;br /&gt;Antes que a noite mate a luz&lt;br /&gt;Com sua espada azul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;quot;Não é, Ruaana, que eu soe mais alto&lt;br /&gt;Ou mais doce que os outros. É que eu&lt;br /&gt;Sou um Poeta, e bebo vida&lt;br /&gt;Como os homens menores bebem vinho.&amp;quot;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ezra Pound&lt;br /&gt;(tradução de Augusto de Campos)</description>
            <author>Paulo_S_F</author>
            <pubDate>Wed, 10 Dec 2008 23:09:56 UT</pubDate>
        </item>
        <item>
            <title>Falas de civilização...</title>
            <link>http://pt.netlog.com/Paulo_S_F/blog/blogid=1520891</link>
            <description>Falas de civilização, e de não dever ser,&lt;br /&gt;Ou de não dever ser assim.&lt;br /&gt;Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,&lt;br /&gt;Com as coisas humanas postas desta maneira,&lt;br /&gt;Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.&lt;br /&gt;Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.&lt;br /&gt;Escuto sem te ouvir.&lt;br /&gt;Para que te quereria eu ouvir?&lt;br /&gt;Ouvindo-te nada ficaria sabendo.&lt;br /&gt;Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.&lt;br /&gt;Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.&lt;br /&gt;Ai de ti e de todos que levam a vida&lt;br /&gt;A querer inventar a máquina de fazer felicidade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto Caeiro</description>
            <author>Paulo_S_F</author>
            <pubDate>Sat, 01 Nov 2008 17:19:05 UT</pubDate>
        </item>
        <item>
            <title>Tabacaria</title>
            <link>http://pt.netlog.com/Paulo_S_F/blog/blogid=1514416</link>
            <description>Não sou nada. &lt;br /&gt;Nunca serei nada. &lt;br /&gt;Não posso querer ser nada. &lt;br /&gt;À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Janelas do meu quarto, &lt;br /&gt;Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é &lt;br /&gt;(E se soubessem quem é, o que saberiam&lt;img class=&quot;smiley&quot; src=&quot;http://v.netlogstatic.com/v4.00/2456//s/i/smilies/unsure.gif&quot; alt=&quot;:)&quot; /&gt;, &lt;br /&gt;Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, &lt;br /&gt;Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, &lt;br /&gt;Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, &lt;br /&gt;Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, &lt;br /&gt;Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, &lt;br /&gt;Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.  &lt;br /&gt;Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,  &lt;br /&gt;E não tivesse mais irmandade com as coisas  &lt;br /&gt;Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua  &lt;br /&gt;A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada  &lt;br /&gt;De dentro da minha cabeça,  &lt;br /&gt;E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.  &lt;br /&gt;Estou hoje dividido entre a lealdade que devo  &lt;br /&gt;À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,  &lt;br /&gt;E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falhei em tudo.  &lt;br /&gt;Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.  &lt;br /&gt;A aprendizagem que me deram,  &lt;br /&gt;Desci dela pela janela das traseiras da casa,  &lt;br /&gt;Fui até ao campo com grandes propósitos.  &lt;br /&gt;Mas lá encontrei só ervas e árvores,  &lt;br /&gt;E quando havia gente era igual à outra.  &lt;br /&gt;Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? &lt;br /&gt;Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa! &lt;br /&gt;E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! &lt;br /&gt;Génio? Neste momento &lt;br /&gt;Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu, &lt;br /&gt;E a história não marcará, quem sabe?, nem um, &lt;br /&gt;Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras. &lt;br /&gt;Não, não creio em mim. &lt;br /&gt;Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas! &lt;br /&gt;Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? &lt;br /&gt;Não, nem em mim... &lt;br /&gt;Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo &lt;br /&gt;Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando? &lt;br /&gt;Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas - &lt;br /&gt;Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -, &lt;br /&gt;E quem sabe se realizáveis, &lt;br /&gt;Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente? &lt;br /&gt;O mundo é para quem nasce para o conquistar &lt;br /&gt;E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão. &lt;br /&gt;Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez. &lt;br /&gt;Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,  &lt;br /&gt;Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu. &lt;br /&gt;Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, &lt;br /&gt;Ainda que não more nela; &lt;br /&gt;Serei sempre o que não nasceu para isso; &lt;br /&gt;Serei sempre só o que tinha qualidades; &lt;br /&gt;Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta &lt;br /&gt;E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,  &lt;br /&gt;E ouviu a voz de Deus num poço tapado.  &lt;br /&gt;Crer em mim? Não, nem em nada.  &lt;br /&gt;Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente  &lt;br /&gt;O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,  &lt;br /&gt;E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.  &lt;br /&gt;Escravos cardíacos das estrelas,  &lt;br /&gt;Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;  &lt;br /&gt;Mas acordámos e ele é opaco,  &lt;br /&gt;Levantámo-nos e ele é alheio,  &lt;br /&gt;Saímos de casa e ele é a terra inteira,  &lt;br /&gt;Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Come chocolates, pequena;  &lt;br /&gt;Come chocolates!  &lt;br /&gt;Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. &lt;br /&gt;Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.  &lt;br /&gt;Come, pequena suja, come!  &lt;br /&gt;Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!  &lt;br /&gt;Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,  &lt;br /&gt;Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei  &lt;br /&gt;A caligrafia rápida destes versos,  &lt;br /&gt;Pórtico partido para o Impossível. &lt;br /&gt;Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,  &lt;br /&gt;Nobre ao menos no gesto largo com que atiro  &lt;br /&gt;A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,  &lt;br /&gt;E fico em casa sem camisa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas, &lt;br /&gt;Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,  &lt;br /&gt;Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,  &lt;br /&gt;Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,  &lt;br /&gt;Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,  &lt;br /&gt;Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,  &lt;br /&gt;Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,  &lt;br /&gt;Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!  &lt;br /&gt;Meu coração é um balde despejado.  &lt;br /&gt;Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco  &lt;br /&gt;A mim mesmo e não encontro nada.  &lt;br /&gt;Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.  &lt;br /&gt;Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,  &lt;br /&gt;Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,  &lt;br /&gt;Vejo os cães que também existem,  &lt;br /&gt;E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,  &lt;br /&gt;E tudo isto é estrangeiro, como tudo.) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vivi, estudei, amei, e até cri,  &lt;br /&gt;E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu. &lt;br /&gt;Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira, &lt;br /&gt;E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses  &lt;br /&gt;(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);  &lt;br /&gt;Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo  &lt;br /&gt;E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiz de mim o que não soube, &lt;br /&gt;E o que podia fazer de mim não o fiz.  &lt;br /&gt;O dominó que vesti era errado. &lt;br /&gt;Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.  &lt;br /&gt;Quando quis tirar a máscara, &lt;br /&gt;Estava pegada à cara. &lt;br /&gt;Quando a tirei e me vi ao espelho,  &lt;br /&gt;Já tinha envelhecido. &lt;br /&gt;Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.  &lt;br /&gt;Deitei fora a máscara e dormi no vestiário &lt;br /&gt;Como um cão tolerado pela gerência &lt;br /&gt;Por ser inofensivo &lt;br /&gt;E vou escrever esta história para provar que sou sublime. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essência musical dos meus versos inúteis, &lt;br /&gt;Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse, &lt;br /&gt;E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte, &lt;br /&gt;Calcando aos pés a consciência de estar existindo,  &lt;br /&gt;Como um tapete em que um bêbado tropeça  &lt;br /&gt;Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. &lt;br /&gt;Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada &lt;br /&gt;E com o desconforto da alma mal-entendendo. &lt;br /&gt;Ele morrerá e eu morrerei. &lt;br /&gt;Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos. &lt;br /&gt;A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também. &lt;br /&gt;Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, &lt;br /&gt;E a língua em que foram escritos os versos. &lt;br /&gt;Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. &lt;br /&gt;Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente &lt;br /&gt;Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas, &lt;br /&gt;Sempre uma coisa defronte da outra, &lt;br /&gt;Sempre uma coisa tão inútil como a outra,  &lt;br /&gt;Sempre o impossível tão estúpido como o real, &lt;br /&gt;Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,  &lt;br /&gt;Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco&lt;img class=&quot;smiley&quot; src=&quot;http://v.netlogstatic.com/v4.00/2456//s/i/smilies/unsure.gif&quot; alt=&quot;:)&quot; /&gt;,  &lt;br /&gt;E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.  &lt;br /&gt;Semiergo-me enérgico, convencido, humano,  &lt;br /&gt;E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los  &lt;br /&gt;E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.  &lt;br /&gt;Sigo o fumo como uma rota própria,  &lt;br /&gt;E gozo, num momento sensitivo e competente,  &lt;br /&gt;A libertação de todas as especulações  &lt;br /&gt;E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois deito-me para trás na cadeira  &lt;br /&gt;E continuo fumando.  &lt;br /&gt;Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira  &lt;br /&gt;Talvez fosse feliz.)  &lt;br /&gt;Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças&lt;img class=&quot;smiley&quot; src=&quot;http://v.netlogstatic.com/v4.00/2456//s/i/smilies/unsure.gif&quot; alt=&quot;:)&quot; /&gt;.  &lt;br /&gt;Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.  &lt;br /&gt;(O dono da Tabacaria chegou à porta.)  &lt;br /&gt;Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.  &lt;br /&gt;Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo  &lt;br /&gt;Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Álvaro de Campos</description>
            <author>Paulo_S_F</author>
            <pubDate>Mon, 27 Oct 2008 12:23:33 UT</pubDate>
        </item>
        <item>
            <title>Cântico negro</title>
            <link>http://pt.netlog.com/Paulo_S_F/blog/blogid=1510908</link>
            <description>&amp;quot;Vem por aqui&amp;quot; — dizem-me alguns com os olhos doces&lt;br /&gt;Estendendo-me os braços, e seguros&lt;br /&gt;De que seria bom que eu os ouvisse&lt;br /&gt;Quando me dizem: &amp;quot;vem por aqui!&amp;quot;&lt;br /&gt;Eu olho-os com olhos lassos,&lt;br /&gt;(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)&lt;br /&gt;E cruzo os braços,&lt;br /&gt;E nunca vou por ali...&lt;br /&gt;A minha glória é esta:&lt;br /&gt;Criar desumanidades!&lt;br /&gt;Não acompanhar ninguém.&lt;br /&gt;— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade&lt;br /&gt;Com que rasguei o ventre à minha mãe&lt;br /&gt;Não, não vou por aí! Só vou por onde&lt;br /&gt;Me levam meus próprios passos...&lt;br /&gt;Se ao que busco saber nenhum de vós responde&lt;br /&gt;Por que me repetis: &amp;quot;vem por aqui!&amp;quot;?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prefiro escorregar nos becos lamacentos,&lt;br /&gt;Redemoinhar aos ventos,&lt;br /&gt;Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,&lt;br /&gt;A ir por aí...&lt;br /&gt;Se vim ao mundo, foi&lt;br /&gt;Só para desflorar florestas virgens,&lt;br /&gt;E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!&lt;br /&gt;O mais que faço não vale nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como, pois, sereis vós&lt;br /&gt;Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem&lt;br /&gt;Para eu derrubar os meus obstáculos?...&lt;br /&gt;Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,&lt;br /&gt;E vós amais o que é fácil!&lt;br /&gt;Eu amo o Longe e a Miragem,&lt;br /&gt;Amo os abismos, as torrentes, os desertos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ide! Tendes estradas,&lt;br /&gt;Tendes jardins, tendes canteiros,&lt;br /&gt;Tendes pátria, tendes tetos,&lt;br /&gt;E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...&lt;br /&gt;Eu tenho a minha Loucura !&lt;br /&gt;Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,&lt;br /&gt;E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...&lt;br /&gt;Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!&lt;br /&gt;Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;&lt;br /&gt;Mas eu, que nunca principio nem acabo,&lt;br /&gt;Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,&lt;br /&gt;Ninguém me peça definições!&lt;br /&gt;Ninguém me diga: &amp;quot;vem por aqui&amp;quot;!&lt;br /&gt;A minha vida é um vendaval que se soltou,&lt;br /&gt;É uma onda que se alevantou,&lt;br /&gt;É um átomo a mais que se animou...&lt;br /&gt;Não sei por onde vou,&lt;br /&gt;Não sei para onde vou&lt;br /&gt;Sei que não vou por aí!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;José Régio</description>
            <author>Paulo_S_F</author>
            <pubDate>Fri, 24 Oct 2008 14:00:33 UT</pubDate>
        </item>
    </channel>
</rss>
